Formado pela Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), Jorge dos Anjos é um artista movido pela experimentação. Curioso, explorou diferentes técnicas e materiais em mais de 50 anos de carreira, notabilizando-se pelo trabalho de escultura em metal e pelo contínuo desejo de ocupação do espaço público. Em Ouro Preto, sua terra natal, pôde ter contato com diferentes mestras e mestres: cursou restauração com Jair Afonso Inácio; pintura com Nello Nuno; desenho com Ana Amélia; além de criar uma relação muito próxima a Amílcar de Castro. Jorge dos Anjos tornou-se, em seguida, professor na mesma escola em que se formou, sendo responsável pelo ateliê de pintura por muitos anos.
Ativo desde a década de 1970, Jorge dos Anjos possui obras nos acervos de instituições como a Fundação Clóvis Salgado, Museu Afro Brasil, Museu de Arte da Pampulha, Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira/MUNCAB, Pinacoteca do Estado de São Paulo e Penn Museum nos Estados Unidos, além de diversas coleções particulares ao redor do mundo. Seus trabalhos também conformam a paisagem urbana de diferentes cidades, com destaque para Belo Horizonte, onde ela constrói diferentes articulações com o espaço arquitetônico e urbanístico, estabelecendo-se como presença incontornável. Em 2023, o artista recebeu o título de Doutor Notório Saber em Artes pela UFMG.
As duas esculturas do artista apresentadas no Instituto Inhotim foram comissionadas no contexto da exposição “Fazer o moderno, construir o contemporâneo: Rubem Valentim”, realizada em 2023 na Galeria Lago, com curadoria de Igor Simões e Lucas Menezes. “Casa de Exu” e “Exu” faziam, orginalmente, parte de uma mesma chapa retangular de aço. No seu processo de composição, movido pelos jogos de cheios e vazios, formas e contraformas, o artista recortou as chapas e as reuniu em duas esculturas, sem qualquer perda de material e reforçando a complementaridade das mesmas. Enquanto “Casa de Exu” foi mostrada no interior da galeria, Exu foi instalada na área externa lateral à edificação. Atualmente, as duas obras permanecem instaladas nos jardins da instituição.
Nascido no distrito industrial de Saramenha, o artista se iniciou no desenho e ainda adolescente fez suas primeiras tentativas na pintura. Jorge dos Anjos é afeito ao trabalho de ateliê; planeja e produz quase sem cessar. Nesse processo, desenvolveu uma pesquisa técnica que converte o fazer em exercício de pura erudição. Sua prática artística se desdobra em diferentes lugares, que por vezes se cruzam e se sobrepõem.
O desenho é o lugar da profusão, da abundância, de diferentes camadas que se contaminam e se apresentam quase como desafogos sobre o papel. Eles são a origem de quase tudo que ele produz, são elaborações, construções complexas e sobrepostas. Do ponto de vista material, efetivam-se seja no papel, no tecido ou outros suportes, através do nanquim, da pólvora, da costura e outros processos. A pintura é o lugar da organização; da seleção de formas, mas também de temas, da pesquisa sobre os elementos e da maneira como gostaria de vê-los representado. Diferente do seu desenho, feito em traços rápidos e contínuos, a pintura o demanda outro tempo, um exercício de contemplação que se estende à natureza, mas que também o conecta às tortuosas ruas de Ouro Preto e às margens da Lagoa da Pampulha. É pintando que o artista combina diferentes traços das raízes afro-brasileiras, rearticulando-os, alcançando composições que referenciam, mas também reverenciam. A construção de objetos e esculturas, por sua vez, é para Jorge dos Anjos o lugar da síntese, onde se desdobram em poucas linhas e movimentos os temas e imagens que o acompanham por toda vida. Nesse exercício, cada gesto importa, cada parte se relaciona ao todo. Em uma tradição que remonta figuras como Mestre Didi, Rubem Valentim e Emanoel Araújo, o trabalho tridimensional de Jorge dos Anjos vai além e reencontra tempo imemoriais e alcança frequências que só seriam bem acompanhadas pelos cantos e ritmos das congadas. Da pedra sabão ao aço, da borracha, ao feltro e à madeira, em distintas dimensões, essa produção acompanha diferentes momentos da produção do artista.