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  • 16 de janeiro de 2014

    Redação Inhotim


    música

    Leitura: 7 min

    Quando a arte inspira a arte

    Quando a arte inspira a arte

    Uma visita ao Inhotim que se transformou em música. Foi assim: no final de 2012, o cantor e compositor paulistano Marcelo Jeneci passou uma temporada em Brumadinho/MG para conhecer o Instituto. Adorou. “Achei inacreditável ter no Brasil um lugar tão rico e bem construído, com uma proposta clara, com tanta beleza. É um convite a enxergar o universo de uma forma diferente”, define. A experiência rendeu frutos para as composições do artista. Em seu novo álbum, “De Graça”, lançado em outubro de 2013, ele apresenta a canção “Pra Gente se Desprender”, inspirada pela obra Forty part motet, 2001, da canadense Janet Cardiff, exposta em uma das salas da Galeria Praça, no Inhotim. Confira, a seguir, nossa conversa com Marcelo, parte de uma nova frota de artistas que têm colorido a cena musical.

    Blog do Inhotim – Marcelo, como aconteceu essa história com a obra da Janet Cardiff?

    Marcelo Jeneci – Fui para Brumadinho e fiquei cinco dias na cidade para conhecer o Inhotim. Achei o máximo a obra da Janet Cardiff com o coral [referindo-se a Forty part motet, 2001]. Escutar aquilo 360 graus, como a gente ouve os ruídos do dia a dia… Essa música litúrgica e barroca tem a ver com um pedaço da minha vida, da infância. Despertou uma memória afetiva primitiva em mim, de quando ia à igreja. Ali pensei: “puxa, tenho que trazer um coral litúrgico que passe a emoção que estou sentindo aqui para o disco”.

    BI – Foi daí que surgiu “Pra Gente se Desprender”?

    MJ – Isso. Criei o tema instrumental do final da música pensando nessa sensação que tive na instalação em Inhotim. Queria fazer as pessoas sentirem o que eu senti lá. De fato, essa experiência interferiu na música. Curiosamente, desde que as resenhas do “De Graça” começaram a sair, ela é a que mais aparece como predileta! Teve uma aceitação diferenciada em relação às outras, sempre ganha um lugar especial nos textos que falam do disco.

    BI – Essa foi sua primeira visita ao parque?

    MJ – Não, já havia tocado com o Arnaldo Antunes lá uma vez. Acho que todos os brasileiros devem conhecer esse lugar, é uma maravilha, uma experiência única que influencia as pessoas. É muito falado, mas, como o País é tão imenso, em alguns lugares às vezes as pessoas ainda não o conhecem. Por onde vou, falo que todo mundo deve ir.

    BI – Em meio a essa produção tão variada que a gente vê hoje em dia, como você se percebe como artista?

    MJ – Acho que arte é afirmação da vida. Como artista, sinto que no meu dia a dia acontece uma troca. É como se as casualidades da vida, a maneira como fui criado e como a música se apresentou para mim tenham me treinado para ser capaz de sintetizar e compartilhar alguns dos meus pontos de vista, sensações em relação ao mundo, dores e alegrias. É tipo o trabalho de quem escreve uma carta: minha sensação é de que devolvo às pessoas uma resposta sobre alguns assuntos. Estamos vivendo um momento muito rico na arte, na música, na história da humanidade.

    BI – Você já disse que quando faz música, tem a intenção de melhorar a vida das pessoas desde o primeiro acorde. Como você vê essa relação entre arte e vida?

    MJ – Tento disseminar um recado positivo, uma visão positiva, incentivar que um sonho dê sempre lugar para outro. Sublinho o lado bom, que é de graça, que é para todos. Às vezes, diante da crueldade da natureza da vida, a gente fica muito distante desse outro ponto de vista. Esse traço presente na estrutura do meu trabalho vem de casa, da combinação dos meus pais, um nordestino e uma paulistana, na periferia de São Paulo. São muito sorridentes, veem a vida muito bonita. Cresci assim, tendo consciência disso e tem momento que essa postura cabe. Uma das coisas mais interessantes da vida é a soma, o que se conversa, se aprende, se ensina… A amizade, o homem, a mulher, o sexo, o que é intrínseco aos nossos instintos. Essa relação entre os seres humanos é muito importante e é fundamental que se fale dela.

    BI – Como está sendo a repercussão do “De Graça”, seu novo trabalho?

    MJ – Sinto que o lançamento está começando a acontecer. Ainda não acelerou tudo, mas tenho recebido feedbacks muito positivos. Do primeiro para o segundo disco tem uma diferença. Esse tem uma proposta mais radical, lisérgica, que não havia antes. Tem mais dor, mais grito, mais “porrada”, e isso está sendo bem aceito, mesmo pelas pessoas que se aproximaram mais da sonoridade do anterior. Ainda assim, são canções que tocam o coração. Já em mim, a diferença é que, nesse, tenho uma sensação de encontro comigo mesmo muito clara e daí pouco importa a opinião do outro. Foi uma catarse, um transe que me curou, me fez um bem horrível (risos). Por tudo isso, qualquer frustração que vier não fica tão pesada. Esse encontro comigo mesmo me emociona.

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    13 de janeiro de 2014

    Rodrigo Moura

    Curador e diretor de Artes e Programas Culturais do Inhotim


    arteexposição

    Leitura: 6 min

    Carta a Amilcar de Castro

    Amilcar,

    Finalmente fui ver tua exposição na Praça da Liberdade. Como deve ter lhe contado o Affonso Ávila, aquilo virou uma procissão de centros culturais, um corredor ou algo assim. Naquele de um banco, fizeram agora uma mostra com as tuas coisas. Eu confesso que custei para encontrar as salas todas, mas quando achei meu caminho dentro das galerias, ouvi tua voz de novo no meu ouvido, aquele som de trovão que me mostrou o caminho há quase duas décadas. Talvez você não ficasse tão incomodado quanto eu fiquei com as paredes coloridas – afinal, você sempre falava que aquelas tuas cores não eram de fato cores no sentido pictórico, mas informação cromática gráfica. Talvez você conseguisse me explicar por que a exposição não tem trabalhos históricos, como se você não precisasse deles mesmo depois de mais de dez anos da tua morte. E por que tem trabalhos de poucas coleções, todas em Minas, e por que a nem um museu foi pedida uma escultura tua – penso pelo menos na Pampulha, logo ali, a quem você doou peças tão bonitas e importantes, mas o MAM do Rio é igualmente aquinhoado. E talvez você me respondesse, um pouco sério e um pouco irônico, que não fosse esta parcialidade seria outra. Que tudo é mesmo relativo neste mundo. Nunca me esqueço de quando te encontrei em Vitória, onde fui para apenas ver tua exposição, uma exposição deslumbrante, e você me perguntou: “você veio aqui só pra isso”? Você estava falando sério? Nunca saberei.

    Andar por aquelas salas hoje me renovou o contato contigo, e o que mais se pode pedir de uma exposição? Não ignoro que quando te perdemos você vinha de alguns dos anos mais prolíficos de tua obra, mais geniais, mas eu duvido que houvesse sido diferente décadas anteriores. Por esta exposição, dificilmente saberemos. Mas, que diabo, você odiava a ideia de mudança. Me lembro das muitas vezes que te liguei para comentar uma exposição tua, ou uma obra nova, e o pavor com que você sempre me demovia da ideia de algo pudesse ter mudado ali. Madeira? É mesma coisa do cor-ten. Vidro? Já fazia nos anos 1950. Inox? Fez em Nova York. Cor? Eu já não sabia? Nesta exposição, quase tudo do fim dos 90, eu revi as mais lindas madeiras (quase 100) e conjuntos expressivos de corte e corte e dobra, principalmente em escala pequena, que é o que dá pra fazer ali. As esculturas maiores, numa das salas, fazem tanto pelo nosso corpo, e eu quase havia me esquecido, cansado de vê-las em fotografias. Tua obra de gravador (que você dizia que era só outra maneira de desenhar) está tratada com rara seriedade, foi um prazer constatar. Mas talvez tudo, na vida, não passe de mais uma maneira de desenhar. Ou, para mim, de escrever. E eu ainda quero te ver escrutinado, datado, sintetizando o Max Bill antes de todo mundo, em 1953, fundamental, vital, central no fermento neoconcreto, do tamanho daquelas que tinham em você um par do mesmo tamanho do deles. Esta vez virá ou eu seguirei esperando, até que talvez eu mesmo a faça. A diferença entre  escala e tamanho, me parece, é uma das tuas grandes lições – e como são monumentais aquelas esculturas pequenas, são cheias de imaginação, e como trazem uma ideia de duração que é tão libertadora dos dogmas, sedutoramente falsos, da arte de bula.

    Descendo as escadas, o prédio velhusco, Belo Horizonte vestida de São Paulo, não estava imune a você, e as forjas, os estucos e os vitrais cantavam a tua presença e se orgulhavam na tua companhia. No lado de fora, o mundo, na saída, não estava imune a você. E cada ângulo reto, cada encontro de vidro e concreto, cada empena modernista, Minas Caixa, Ipsemg, rua Goiás, papelaria Carol, existia desta maneira eterna que o teu trabalho existe. Depois de ti, nunca estaremos indiferentes à forma.

    Numa das últimas vezes que nos falamos, você me disse que estava feliz com aquela tua última exposição na Pinacoteca. Escrevendo pro jornal, eu te citei então: “Não acho ruim, me dá prazer fazer. Gostei de como está ajeitado”. Como eu disse na época: parece simples. Continua não sendo.

    O carinho agradecido de apenas mais um dos teus alunos,

    Rodrigo

    Belo Horizonte, 14 de dezembro de 2013

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    03 de janeiro de 2014

    Jochen Volz

    Curador do Inhotim e das Serpentine Galleries


    arteinauguraçãoJochen Volznatureza morta

    Leitura: 2 min

    Natureza-Morta X Still Life

    Natureza-Morta X Still Life

    É intrigante que em todas as línguas do norte europeu a Natureza-Morta (Still life) é tão evidentemente ligada à vida, mesmo que pela ausência de movimento, enquanto em todas as línguas latinas a mesma prática artística é descrita como natureza-morta. Apesar da possibilidade de uma equação entre vida inerte e morte ser natural, a mesma categoria de representação é descrita a partir de pontos de vista opostos. Por meio de nuances, contradições sutis e irritação poética, a Natureza-Morta tem um papel central na história da arte. Imagens de objetos cotidianos como frutas e legumes, panelas, copos, utensílios e outros objetos domésticos sempre foram estritamente exercícios de observação. Entretanto, isso se transformou em uma forma autônoma de arte a partir do século XVI, e, ao mesmo tempo, tornou-se uma declaração filosófica que descreve a finitude do ser e a equidade da existência de coisas orgânicas e inorgânicas.  Na arte contemporânea, a organização e reorganização de objetos, por meio do contraste entre a ordem e a desordem, o vazio e o cheio, a presença e a ausência, os artistas nos encorajam a questionar o espaço físico e mental no qual vivemos, assim como os valores atribuídos ao nosso conhecimento sobre as coisas.  Os trabalhos apresentados na exposição “Natureza-Morta”, na Galeria Fonte, questionam os parâmetros que utilizamos para descrever o mundo no qual vivemos, assim como os objetos que definimos como arte. O tempo parado, como sugerido no trabalho de Jorge Macchi, nos dá a oportunidade de descobrir novos sistemas de significados e procedimentos inesperados. 

    * Jochen Volz é curador do Inhotim

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    30 de dezembro de 2013

    Redação Inhotim


    botânicadesignloja inhotim

    Leitura: 3 min

    Boas lembranças

    Boas lembranças

    Quem adora passear por lojinhas de museus não pode deixar de visitar dois espaços muito especiais do Inhotim, repletos de lembranças da visita no parque. Inaugurada em 2007, a loja design do Instituto tem um mix variado de produtos, entre livros, DVDs, peças decorativas, brinquedos sustentáveis, acessórios e a linha institucional do Inhotim, que acaba de sair do forno. Ainda não conhece? São livros de anotações, lápis, canecas, camisetas, ecobags, bolsas, entre outros, com preços para todos os bolsos. Para deixar os itens ainda mais charmosos, a marca do Inhotim foi transformada em uma estampa tipográfica, que aparece nas cores azul cobalto, vermelha, verde e preta.

    Já o espaço dedicado à botânica disponibiliza para venda espécies do acervo de plantas do Instituto, ferramentas para jardinagem, objetos de decoração, além de utensílios em cerâmica. O mais legal é que quem curte plantas pode levar para casa as variedades cultivadas dentro do parque já plantadas em vasos cerâmicos feitos pelas mãos de moradores de Brumadinho e região, que iniciaram nesse ofício por meio de um projeto do Instituto voltado à comunidade. Vale lembrar que a venda de produtos é uma das formas de sustentabilidade da instituição, já que é fonte de renda para que possa se manter e continuar recebendo visitantes de todo o mundo.

    Lojas do Inhotim vendem acessórios exclusivosLojas do Inhotim oferecem produtos que carregam o DNA do Instituto Foto: Ricardo Mallaco

    A perfeita sintonia entre a essência do parque e as lojas Inhotim lhes garantiu um lugar na lista do site Blouin Artinfo, que elegeu as mais bacanas do mundo no segmento.

    Para saber

    Lojas Inhotim – design e botânica

    Onde fica? Rua B, 20 – Brumadinho/MG

    Quando funciona? De terça a sexta-feira, de 09h30 às 16h30. Sábados, domingos e feriados, de 09h30 às 18h30

    Como pagar? Dinheiro, cheque e todos os cartões de crédito e débito

    Alguma dúvida? Ligue para (31) 3571-9848

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    27 de dezembro de 2013

    Júlia Rebouças

    Curadora do Inhotim


    arteBabette Mangolteinauguração

    Leitura: 4 min

    Sobre olhar como ação

    Sobre olhar como ação

    Quando entrei na sala da galeria Mata onde está exposto um conjunto de obras de Babette Mangolte, chamou-me a atenção a imagem de um rosto masculino, num aparelho de televisão. Richard Serra, filmado sobre um fundo azul – um dos poucos elementos cromáticos da sala – parece fitar o espectador. Ele carrega expressão séria, quase imóvel, e observa quem o olha, observa a lente. No monitor ao seu lado, em preto e branco, está a imagem de Yvone Rainer, mais descontraída, com uma faixa na cabeça e brincando com uma fita adesiva sobre seus lábios. Mas o seu retrato também encara a câmera. Os dois aparelhos, posicionados no centro da sala, convertem-se para mim numa bonita metonímia sobre o processo de trabalho e de pesquisa da artista ali exibida monograficamente. Quando olha para o outro, Babette Mangolte nos revela a sua própria matéria subjetiva.

    Francesa radicada nos Estados Unidos, Babette acompanhou e registrou em filme, vídeo e fotografia a importante cena de dança, teatro e arte que floresceu sobretudo nos anos 1970 na cidade de Nova York. Os reflexos das experimentações realizadas naquele momento viriam a impactar definitivamente os rumos tomados pela arte. O arquivo generoso e plural que a artista construiu, mais do que simplesmente documentar um período histórico, propõe uma inflexão criativa e crítica que constitui a memória daquele tempo.

    Babette Mangolte - Touching III with collage III, 2013Babette registrou em filme, vídeo e fotografia a cena de dança, teatro e arte, sobretudo em Nova York nos anos 70 Foto: Rossana Magri

    Numa conversa durante a montagem, a artista comentou o impacto das primeiras exibições do filme Water Motor (1978). Nele, a coreógrafa Trisha Brown aparece dançando por sete minutos. Sem figurino, sem cenário, sem música, apenas o corpo em movimento, representado no compasso desacelerado da câmera lenta. Nas palavras da Babette, aquela era uma imagem de tamanha abstração, fora de qualquer suporte narrativo, que parecia impossível de ser contemplada nos idos anos 70.  Foi preciso que gêneros como o videoclipe se popularizassem nas décadas seguintes para que essas manifestações pudessem ser compreendidas numa escala maior. A forma de olhar era tão desafiante que se equivalia à radicalidade da própria dança. 

    * Júlia Rebouças é curadora no Inhotim desde 2007.

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