Leitura: 9 min

De olhos bem abertos para a arquitetura do Inhotim

De olhos bem abertos para a arquitetura do Inhotim

Resolvi conhecer o Inhotim depois de ver no Instagram as fotos de um amigo que tinha feito essa viagem recentemente. Olhei para aquele lugar, por meio da tela do celular, e me deslumbrei de repente. Um tempo depois, organizei o passeio para ir com minha família, e me lembro como se fosse hoje da sensação de entrar na Galeria Claudia Andujar (G23) pela primeira vez. As luzes, a sombra, o corredor que nos leva até a primeira sala, os tijolos… era tudo feito de uma forma muito especial para abrigar um trabalho tão potente como o dela. No último carnaval, dois anos depois dessa visita, decidi voltar para colocar em prática um projeto pessoal: escrever conteúdos sobre arquitetura para compartilhar com quem gosta no meu site. Não existia nenhum lugar melhor para começar a costurar palavras sobre projetos que admiro.

Meu encantamento pela Galeria Claudia Andujar começou pelo corredor de acesso, que já emociona à primeira vista. A composição de tijolos artesanais dispostos de forma inusitada nos convida a conhecer o interior da galeria. Os tijolos estão dispostos de forma ritmada, o que torna o edifício único, criando uma relação incrível de cheios e vazios, realçando um interessante jogo de luz e sombra e dialogando de forma sensível com as obras fotográficas expostas no espaço.

A fachada, assim como algumas áreas internas, é revestida pelos mesmos tijolos, trazendo identidade ao projeto. Além disso, me chamou a atenção a iluminação zenital, proporcionada por diferentes vazões de raios solares na cobertura da edificação. Esse tipo de disposição de luz, junto à abertura de vidros no interior, permite uma forte integração com a área externa. Ao visitar essa galeria, pare e perceba o efeito sinestético que a materialidade, a disposição dos espaços, a paginação ritmada dos tijolos e a sutileza da luz invadindo gentilmente o espaço lhe proporciona.

Design sem nome (8)

Não muito longe dali está a Galeria Miguel Rio Branco (G16), com uma volumetria escultórica que chama atenção à primeira vista. Observando de longe o prédio, fica evidente a forma do pavimento superior suspenso em um grande declive. A forma remete a um monólito com inclinações variadas, agressivo e frio. Fechado, sem janelas, e com vedação em aço, cria uma atmosfera sombria que dialoga com as obras abrigadas no prédio. Por meio de fotos, vídeos e projeções com cores vivas, a curadoria reuniu ali trabalhos que retratam recortes de realidades vulneráveis, como a Série Maciel (1979), realizada no Pelourinho, em Salvador. Para compensar a escuridão das salas, o acesso a elas é feito por uma escada iluminada pelos feixes de luz do sol que a abertura zenital proporciona.

miguel rio brano

Passando pela rota rosa do mapa, subimos até a galeria Doug Aitken (G10), onde está o Sonic Pavillion (2009), popularmente conhecido como “O Som da Terra”. Esse projeto se destaca pela maneira como a construção trabalha a relação entre forma e função. Trata-se de um pavilhão, composto de vidro e aço, de formato circular, revestido por uma película plástica. Ao centro dele, um poço tubular com cerca de 200 metros de profundidade dotado de um sofisticado sistema de microfones que (pasmem!) amplifica o som da Terra em tempo real! Muitos visitantes escolhem contemplar o som em um banco de madeira que circunda o perímetro da galeria. O fato de se sentarem em forma de círculo, com o poço ao centro do espaço, traz o efeito sinestésico de apreciação sonora necessário para uma obra como esta. A experiência é transformadora!

Design sem nome (9)

Outro grande exemplo de sintonia entre forma e função é a Galeria Cosmococa (G15). Sua volumetria externa é composta por cinco salas de experimentação conectadas por um hall central. Ao entrar, os visitantes podem transitar livremente entre as salas de experimentação, na ordem em que preferirem. Inclusive, na visão do artista Hélio Oiticica, o visitante aqui vai além da passividade costumeira, quando se trata de museus e galerias de arte. Procurando desconstruir a lógica estabelecida entre observador e objeto, para ele, todos que entram nas Cosmococas são “participadores”, por terem um papel ativo na tarefa de conferir sentido à obra.

Sobre a fachada, o revestimento em pedras difere a galeria das demais, trazendo um conceito único e monumental ao projeto. Em contrapartida, a cobertura verde acessível pelo nível mais alto do parque, integra o projeto ao paisagismo, proporcionando um extenso espaço de contemplação e contato com o horizonte. É uma experiência fenomenal visitar a esse lugar!

Design sem nome (10)

Na mesma rota da Galeria Cosmococa, encontramos a Galeria Adriana Varejão (G7), com formas que podem parecer rígidas, mas que permitem fluidez de percursos, já que pode ser visitada a partir do pavimento térreo e também pela cobertura do edifício. Em contraste com sua forma brutal e a materialidade em concreto armado, os espelhos d’água em formatos geométricos imprimem leveza e refletem a natureza que circunda o edifício. As aberturas também são zenitais e iluminam indiretamente as obras de arte de forma poética e sensível. Trata-se de mais um exemplo da integração entre arquitetura, arte e natureza no Instituto.

Design sem nome (7)

Por fim, não poderia deixar de expressar o meu encantamento pela Galeria Psicoativa Tunga (G21). Seu pavilhão amplo, diferente das galerias que já citei aqui, confere um caráter flexível no que se trata de exposição de obras de arte. O pé direito alto, a fachada livre e um grande espaço interno permitem a exposição de diversos tipos e tamanhos de trabalhos artísticos sob diversos pontos de vista. Foi ali que vi aquela belíssima obra À Luz de Dois Mundos (2005).

Design sem nome (11)

Essas, para mim, são as galerias com arquitetura mais marcantes no Inhotim. Enquanto algumas apresentavam forte relação entre a espacialidade e a obra exposta, como as Galerias Doug Aitken e Cosmococa, outras apresentam caráter mais flexível e mutável, como a Galeria Cláudia Andujar e Adriana Varejão. Outra diferença marcante entre elas é a materialidade. As escolhas feitas no momento de definir qual o material que seria empregado em cada projeto ajudou a definir o caráter e a identidade de cada uma. Em comum entre todas elas, há o forte padrão de integração entre o que existe por dentro – obras de arte – e o que existe por fora – paisagismo.

Para mim, visitar Inhotim é ter contato com outras possibilidades de vivência da arte e da natureza. Mais do que é possível expressar em um texto, cabe a cada um experimentar as diversas sensações que as galerias, as obras e os jardins despertam de forma particular em nós.



voltar
  • Twitter
  • Facebook
  • Google +