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  • 27 de julho de 2016

    Bruna Nicolielo

    Jornalista e Amiga do Inhotim


    Leitura: 5 min

    O templo de Lygia Pape #Ensaio1nfinit0

    O templo de Lygia Pape #Ensaio1nfinit0

    Assim é (se lhe parece). Por esses caminhos labirínticos da memória, foi justamente o título da peça do italiano Luigi Pirandello que me veio à mente ao ver Tteia 1C pela primeira vez. Para resumir, o autor questiona a existência de uma realidade objetiva, que pode ser interpretada de modo inequívoco, por meio da racionalidade. E isso, para mim, tem tudo a ver com a obra icônica de Lygia Pape — uma das mais arrebatadoras de Inhotim, onde ganhou uma galeria exclusiva.

    Inteiramente vedado e geométrico, o prédio é quase um templo: retira o visitante de um mundo exterior, da luz do dia e dos lindos jardins do parque, e leva para um mundo interior, que convoca à introspecção. Na sala completamente escura, está a Tteia: fios dourados dispostos no sentido vertical e perpendicular, iluminados por focos de luz, que, aqui e ali, ressaltam essas formas no espaço. À primeira vista, eles parecem flutuar, ou dissolver-se. O visitante é induzido a circundar a obra, que, gradual e sutilmente, revela novos feixes de luz. A aproximação traz a descoberta de que os fios estão fixos ao chão em plataformas de madeira. Presume-se, então, que também estejam presos no teto, mas o efeito de “dissolução” persiste. Tento seguir o fluxo das luzes e, ato contínuo, elas desaparecem imediatamente diante dos meus olhos. A mudança de perspectiva e a existência breve de cada um deles cria uma inquietação: Tteia sempre esteve aí, ou sou eu que a vejo, de uma dada forma, de um jeito só meu? Assim é, se lhe parece, retomando a afirmação que abre este texto.

    Os fios da Tteia ocupam e reinventam espaços, criando volume. Assim, ignoram as fronteiras entre o real e o imaginário. Eis o efeito surpreendente da obra. É como se a linguagem geométrica finalmente saísse do papel e ganhasse vida, existisse de forma singular para cada observador que a contempla. Essa conexão entre o espaço e múltiplas subjetividades, aliás tornou-se uma constante no trabalho de Lygia Pape. Várias Ttéias foram produzidas, de 1977 aos anos 2000, como resultado de suas pesquisas sobre a linguagem geométrica. As instalações marcam o amadurecimento da artista, seu avanço gradual, da ruptura com a figuração, nos anos 50, rumo à tridimensionalidade e à total abstração do espaço, bem como sua transição para trabalhos mais monumentais, que flertam com a arquitetura. Em todas as produções do gênero, ela explorou as mesmas questões: a espacialidade, a luz natural e artificial e os materiais simplórios e potencialmente efêmeros, como o fio de cobre e de nylon. Também abriu caminho à participação efetiva do público, seguindo à risca a cartilha do Neoconcretismo, do qual foi uma das fundadoras.

    Uma das mais ativas figuras nessa renovação da arte brasileira, Lygia bebeu nas ideias das vanguardas europeias, interpretando-as ao seu modo. Assim, lançou seu olhar sobre o entorno, marcado por grandes transformações urbanas. Ao transitar de fusquinha pelas ruas do Rio de Janeiro, onde morou praticamente a vida toda, viu a dinâmica da cidade e seu crescimento desordenado, suas pontes e viadutos, a industrialização crescente, a dualidade entre exclusão e inclusão em um lugar que oprime, mas também acolhe e deslumbra. Certa vez, em um depoimento, ela declarou que circular pela urbe se parece com o feitio de uma teia, por uma aranha. Como o animal que produz sua rede de fios para uma dada finalidade, que vai da captura de presas à cópula e ao abrigo, andamos pela cidade criando fluxos próprios. Para Lygia, nesse trânsito elegemos espaços importantes e de afeição, que marcam a experiência humana. Essas reflexões se concretizaram nas Tteias, que, não por acaso, remetem às palavras teia e teteia, que no linguajar do povo, significa algo bonito, gracioso.

    No emaranhado de fios e caminhos invisíveis que foi sua vida, Lygia teceu suas proposições, seu projeto de vida e de arte. E Tteia 1C é o maior emblema de seu modo de ser e sentir e das suas convicções artísticas, tão radicais quanto inovadoras.

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    26 de abril de 2016

    Thaís da Cruz Araujo

    Educator


    Leitura: 4 min

    A arte cômica de William Kentridge

    A arte cômica de William Kentridge

    I’m not me, the horse is not mine, obra do artista sul-africano William Kentridge, é destaque nas exposições temporárias do Inhotim. Exposta desde outubro de 2015 no Galpão, espaço preparado para receber obras de grandes dimensões no Instituto, o título da instalação em vídeo faz referência a uma expressão utilizada pelos camponeses russos para negar a responsabilidade de algo. As projeções são um fragmento do que o artista produziu enquanto preparava a sua versão da ópera O Nariz, de Dmitri Shostakovich para o New York’s Metropolitan Opera exibida em março de 2010.

    A obra de Kentridge é composta por oito projeções com cerca de seis minutos de duração que ficam em loop constante. O público pôde conferir a vídeoinstalação pela primeira vez na Bienal de Sidnei em 2008, posteriormente no MoMA de Nova York em 2010 e no Tate Modern de Londres entre os anos de 2012 e 2013, até a chegada ao Inhotim em 2015.

    O Nariz é um conto clássico da literatura russa. Escrito entre 1835 e 1836 por Nikolai Gogol, inspirou Shostakovich a compor a ópera homônima em 1927. A sátira narra um homem que acorda de manhã e percebe que seu nariz desapareceu, ele sai à sua procura e quando o encontra, nota que o nariz é hierarquicamente superior ao seu dono. Depois de vários encontros, eles acabam reunificados.

    William Kentridge, por meio da arte e do humor, faz intervenções sobrepondo um nariz nas imagens de arquivo e registros históricos. Ele ainda utiliza linguagens como performance, colagens, desenhos em carvão e principalmente stop motion, para falar da vanguarda russa, como o cinema de Vertov, a arquitetura da torre de Tatlin ou o movimento suprematista de Malevich. É possível identificar alguns nomes históricos como o de Stalin, líder da União Soviética e o da bailarina Anna Pavlova, ícone do balé russo.  As referências utilizadas pelo artista são muitas. A cada novo loop das projeções é possível relacionar a obra a fatos históricos do regime totalitário russo.

    As projeções espalhadas pelo Galpão contam a história do conto "O Nariz" de maneira tragicômica, traço frequente nas obras de Kentridge. Foto: William Gomes.

    As projeções espalhadas pelo Galpão contam a história do conto “O Nariz” de maneira cômica, traço frequente nas obras de Kentridge. Foto: William Gomes.

    A trilha sonora original, parte importante da instalação, foi composta por Phillip Miller, parceiro de Kentridge em diversos projetos desde Felix in Exile de 1994. Miller gravou trechos do coro da Igreja em Johannesburg e usou o ritmo como base, mesclando as gravações com a música de Shostakovich de forma indireta, como se fosse uma colagem.

    William Kentridge apresenta uma montagem única do seu olhar, na qual a arte é capaz de se apropriar de forma cômica da história e das linguagens, mesclando o interesse pela Rússia com suas próprias referências de seu país de origem.

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    14 de março de 2016

    Redação Inhotim


    Leitura: 4 min

    Dias de aprendizado nos jardins do Inhotim

    Dias de aprendizado nos jardins do Inhotim

    A chuva se preparando pra cair do céu não foi motivo de desânimo para o grupo de mais de 200  pessoas que esperavam com ansiedade o paisagista Raul Cânovas e o engenheiro agrônomo do Inhotim Juliano Borin para o primeiro Curso de Paisagismo do Instituto, realizado de sexta a domingo no Parque. Gente de diferentes partes do Brasil estavam ali para três dias de prática e reflexão sobre o poder transformador dos jardins. “Não podemos perder a nossa essência. E isso vem, em primeiro lugar, da nossa paisagem. Pensando de uma forma muito simples e simbólica, quando o homem primitivo acorda, a primeira coisa que ele olha é o horizonte, é a paisagem. Devemos valorizar e cuidar disso com carinho”, disse Raul, logo ao iniciar o curso.

    Com bom humor, a dupla deu início ao curso falando sobre o que Raul afirmou ser o pilar do paisagismo, por oferecer, flores, frutos e sombra: as árvores. Segundo ele,  o Brasil é um lugar privilegiado por proporcionar uma “eterna primavera” devido ao seu clima predominantemente tropical que faz possível espécies florescerem o ano inteiro. Juliano usou sua experiência profissional com agronomia em diferentes lugares do Brasil e do mundo para contar mais sobre cuidados, curiosidades e características de diferentes espécies. As palmeiras também foram tema do debate, assim como os arbustos, as trepadeiras e as herbáceas.

    Durante os três dias, os alunos tiveram a chance de passear por entre os caminhos do Parque, observando, junto a Raul e Juliano, as espécies que compõem o Inhotim. O passeio serviu para mostrar como cores, formas e texturas podem inspirar na montagem do jardim de cada um.  Raul explicou sobre a importância em atentar para as diferentes sensações que cada planta desperta dentro das pessoas. A flor branca, por exemplo, é uma boa opção para lugares abertos, provocando o sentimento de frescor quando contrasta com o azul do céu,  ideal para estar perto de piscinas e áreas de lazer. Já a palmeira, passa a sensação de tranquilidade e flexibilidade “se vem uma tormenta, ela se inclina. Pode até quase cair, mas se reergue. Sem contar o fruto, que é puro potássio. Não é atoa que uma pessoa abraça uma palmeira quando se sente angustiada”, pontuou Raul.

    Raul e Juliano também levaram aos alunos debates sobre a organização dos jardins, a importância da presença da curva no paisagismo e os cuidados com a iluminação. Cânovas explicou que evitar um caminho todo reto é importante para incentivar o contato das pessoas com a natureza. “A curva foi uma descoberta para o paisagismo, ela nos remete ao universo, porque te obriga a olhar em volta, a estar consciente do seu próprio caminhar”, disse Raul, sempre de forma poética e serena.

    A dupla concluiu o curso no final da tarde deste domingo com a certeza de ter despertado nos alunos um olhar mais carinhoso e cuidadoso sobre as formas de se fazer um jardim. Durante as aulas, o que ficou do discurso de Cânovas foi a convicção de que as plantas não possuem emoção, mas têm sentimentos. Sentem frio, calor, sede, adoecem… São seres que vivem, transmitem energia e não apenas enfeitam, mas também fazem dos lugares um lugar de aconchego e paz.

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    19 de fevereiro de 2016

    Flávia Azevedo

    Amiga do Inhotim, pesquisadora e curadora independente,


    Leitura: 4 min

    Arte, natureza e literatura na Biblioteca Inhotim

    Arte, natureza e literatura na Biblioteca Inhotim

    Desde que me aventurei pelo caminho da curadoria, venho prestando bastante atenção em espaços de convivência para leituras, estudos e pesquisas. Como frequentadora assídua do Instituto não deixo escapar detalhes de qualquer cantinho que seja.

    Em minha última visita, me deparei com uma interessante – e importante – descoberta. Não era mais uma surpreendente galeria, obra de arte ou espécie botânica, mas sim uma singular biblioteca no Centro de Educação e Cultura Burle Marx.

    Fiquei impressionada pelo vasto acervo de mais de 6 mil títulos não só sobre arte moderna e contemporânea, mas também botânica e muito mais. Títulos especiais, minuciosamente catalogados, dos mais diversos artistas e editoras, nacionais e internacionais.

    Além dos livros que se aprofundam nas coleções de arte do Inhotim, o acervo também contempla livros biográficos dos artistas, catálogos de exposições e bienais, textos diversos e várias outras obras literárias relacionadas aos diversos movimentos artísticos e história da arte.

    O acervo é ímpar. Me deparei com singulares livros de arte que não são fáceis de encontrar em bibliotecas ou livrarias hoje em dia, assim como edições raras que já não são produzidas mais.

    Ah, e não podia deixar de mencionar o lúdico do ambiente. A biblioteca é um espaço de convivência – silencioso, claro -,  fantástico que convida diferentes tipos de públicos e leitores, inclusive os mirins. Recomendo a visita para pesquisadores, estudantes e todos que se interessam por artes plásticas, fotografia, história, literatura e botânica. O espaço é propício para breves leituras numa tarde chuvosa e também para aqueles que buscam debruçar-se em longos projetos de pesquisa.

    Frequentar a Biblioteca do Inhotim, me faz refletir cada vez mais sobre o papel destes espaços na sociedade contemporânea. Assim como os museus, é preciso pensar a biblioteca como importante espaço de convivência cultural que estimula nossa imaginação e relação com a cultura.

    E essa é a proposta da Biblioteca do Inhotim, convidar o público para uma experiência rica em conhecimento que contempla uma coletânea de obras literárias que envolve toda a essência do Instituto. Afinal, arte, natureza e literatura são um excelente convite.

    Imagine um rico acervo literário situado no meio de toda a exuberância da natureza em uma das paisagens mais únicas de Minas Gerais. Como disse o filósofo Cícero, “se temos uma biblioteca e um jardim, temos tudo”.

    Conheça a Biblioteca do Inhotim.  De segunda a sábado de 09:00 às 17:00.

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