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  • 03 de fevereiro de 2016

    Lilia Dantas

    Supervisora de Arte e Educação do Inhotim


    brumadinhocomunidadeeducaçãoinhotim

    Leitura: 5 min

    Retrospectiva Laboratório Inhotim 2015

    Retrospectiva Laboratório Inhotim 2015

    O Laboratório Inhotim, realizado pelo instituto desde 2007, atende anualmente 30 jovens moradores de Brumadinho e seus distritos rurais, matriculados na rede pública de ensino local. O projeto busca a formação continuada desses jovens para o desenvolvimento de um olhar crítico com relação à sociedade, criativo diante dos desafios e tolerante diante da diversidade.

    A cada ano o Laboratório faz um recorte no universo da arte contemporânea para conhecê-lo melhor. Recortar, para nós, é desenhar um ponto de partida. Neste ano, o recorte escolhido foi o corpo como forma de expressão, e a rua, o corpo coletivo, como espaço de atuação. Tudo isso investigando o museu como referência principal. Ao final dessas experiências, encerramos nossa jornada refletindo sobre o futuro e suas impermanências.

    No início do ano, dançamos. Conduzidos pela coreógrafa mexicana Alma Quintana, nossos jovens de 13 a 16 anos aceitaram o convite para conhecer melhor as possibilidades de expressão contidas nos seus próprios corpos. A vergonha e a insegurança deram lugar a movimentos novos e surpreendentes para cada um deles. Para além de dançar, todos estavam começando a entender a que tipo de experiências o Laboratório os levaria.

    Em seguida, iniciamos nossa pesquisa sobre a rua, conceito que se tornou cada vez mais importante no decorrer dos meses. Em Brumadinho, descobrimos lugares abandonados e esculpidos pelo tempo, conhecemos um enorme forno feito de barro que fica no quintal da casa do Geovani, participante do projeto, e provamos os maravilhosos biscoitos de polvilho feitos pela sua avó. Vimos beleza nos muros das casas que, na sua maioria, fazem um pequeno recuo para abrigar, do lado de fora, os padrões de energia elétrica. “Sair do padrão”, então, passou a significar intervir nesses espaços e entender o que mais eles poderiam abrigar. Aprendemos que intervir no espaço público requer responsabilidade. Foi preciso negociar com os vizinhos e envolver os passantes na história que queríamos contar.

    Nossa relação com a rua foi intensificada quando decidimos realizar, pelo segundo ano consecutivo, o Festival de Rua. Dessa vez, ele aconteceu no distrito de Aranha e foi chamado de Festival Korocupá, palavra nova que a gente inventou para misturar Cor+Ocupação. Visitamos a praça local, observamos seus detalhes, medimos suas dimensões, e a partir dessa coleta preparamos tudo para que aquela praça fosse tomada pelos nossos jovens, pelos moradores da região e por visitantes de outras partes do município. Artistas locais se apresentaram, oficinas foram realizadas para crianças e adultos e, no final do dia, uma grande explosão de cores no estilo Happy Holi cobriu toda a praça!

    Depois de tanto trabalho, era hora de voltar a olhar e refletir sobre nós mesmos. Para isso, mergulhamos mais fundo no acervo de arte contemporânea do Inhotim em busca de referências e inspiração para que cada participante pudesse desenvolver a sua própria ideia para um trabalho de arte. Esse foi, talvez, o processo mais difícil para todo o grupo. Nem sempre é fácil mergulhar em nossas próprias inquietações para gerar algo a ser visto, exposto. O tema dos trabalhos foi, por escolha do grupo, o futuro. Nossa exposição, por fim, se chamou “Tomara: Proposições Para Um Futuro Qualquer” e trouxe pinturas, desenhos, vídeos, fotografias e instalações feitas pelos jovens.

    E, por falar em futuro, em 2016 o Laboratório Inhotim atenderá sua décima turma e ampliará seu universo de investigações. A partir de agora, além de pesquisar a arte contemporânea e suas manifestações, passaremos também a explorar questões importantes acerca do meio ambiente, usando para isso o acervo botânico do Inhotim. Para nós educadores, isso significa uma oportunidade de expandir e complexificar nosso olhar sobre o Inhotim e de experimentar novas maneiras para transpor todo esse estímulo para nossos processos educativos.

    Acompanhe ao longo do ano outras postagens que revelarão a memória do projeto educativo mais antigo do Instituto. Comemoraremos juntos dez anos de projeto, cerca de 300 jovens atendidos e muitas boas histórias pra contar.

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    01 de fevereiro de 2016

    Raul Cânovas

    Paisagista, professor e escritor


    Leitura: 3 min

    A Magia do paisagismo no Inhotim

    A Magia do paisagismo no Inhotim

    Visito este lugar antes mesmo de ser inaugurado. E nesses anos todos, depois de tantas e tantas caminhas pelo parque – sempre acompanhado por dezenas de alunos de paisagismo – ainda fico deslumbrado com a exuberância dessa vegetação que parece querer reconstruir uma paisagem edênica. Nós, paisagistas, um pouco pretensiosamente, queremos sempre reinventar esse Paraíso perdido, narrado em tantos textos religiosos. Aliás, se me ocorre que a mesma palavra que nos religa às coisas divinas, também pode ser empregada para religar nos com as paisagens bucólicas que perderam espaços para as cidades.

    Não consigo deixar de lado os aspectos insondáveis que as paisagens encerram e fico penalizado quando sou obrigado a assistir jardins onde as plantas são obrigadas a fingir uma verdejante felicidade. É por isso que passear no Jardim Botânico Inhotim é uma experiência tão singular; a naturalidade dos cenários transbordantes de verdes, as trilhas ondulantes que revelam sempre novas perspectivas e sua flora riquíssima com aproximadamente 5 mil espécies, fazem desses jardins um exemplo de coisa genuína, de algo que reconforta e devolve a fé numa natureza que tanto tem a oferecer.

    Tudo isto nos motivou a dar um curso onde todos: paisagistas, arquitetos, engenheiros agrônomos e florestais, biólogos, botânicos, designers de interiores, colecionadores de plantas e amantes da natureza, possam apreender os fundamentos do paisagismo tropical e de sua flora, vivenciando essa magia que me emociona desde sempre.

    Paisagem do Inhotim vai ser usada como cenário do curso de Raul Cânovas. (Foto: William Gomes)

    Paisagem do Inhotim vai ser usada como cenário do curso de Raul Cânovas. (Foto: William Gomes)

    Curso de Paisagismo
    Raul Cânovas, especialista em paisagismo com mais de 50 anos de experiência, vai realizar o primeiro Curso de Paisagismo do Inhotim. O evento acontece em 11, 12 e 13 de março e tem foco no paisagismo tropical e sua flora. Durante os três dias, os participantes irão visitar os jardins e realizar conversas no Teatro do Instituto. O curso tem valor de R$ 660,50 e há descontos para estudantes, maiores de 60 anos, participantes do Programa Amigos do Inhotim e também para quem fizer matrícula até 19 de fevereiro. As vagas são limitadas e os interessados devem acessar o link www.jardimcor.com/inhotim para inscrição e mais informações.

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    28 de janeiro de 2016

    Redação Inhotim


    botânicainhotim

    Leitura: 3 min

    Inhotim recebe 17 mil orquídeas

    Inhotim recebe 17 mil orquídeas

    Neste mês de janeiro, funcionários do Inhotim implantam pelo Parque cerca de 17 mil orquídeas de uma das espécies mais cobiçadas pelos colecionadores: a Cattleya walkeriana . Os exemplares foram doados por meio de uma parceria firmada com a Orchid Brazil, empresa especializada em orquídeas raras e melhoradas geneticamente, além de ser a fornecedora oficial de orquídeas do Inhotim.

    As mudas estão sendo implantadas nas palmeiras entre as Galerias Fonte e Cildo Meireles, área que agora passa a se chamar Largo das Orquídeas . Outros exemplares serão colocados no entorno da Recepção e ao redor dos Restaurantes Oiticica e Tamboril. A previsão é que as Walkerianas iniciem sua floração a partir do mês de abril no Inhotim.

    Segundo o diretor de Jardim Botânico do Inhotim, Lucas Sigefredo, o recebimento das orquídeas cumpre com alguns objetivos do Instituto. “Além de valorizar o paisagismo do Parque, as orquídeas vão compor a programação educativa que oferecemos aos visitantes. A ação também é importante para incorporar novas espécies ao Jardim Botânico”, explica.

    As mudas estão sendo implantadas nas palmeiras entre as Galerias Fonte e Cildo Meireles, área que agora passa a se chamar Largo das Orquídeas. (Foto: William Gomes)

    As mudas estão sendo implantadas nas palmeiras entre as Galerias Fonte e Cildo Meireles, área que agora passa a se chamar Largo das Orquídeas. (Foto: William Gomes)

    A doação foi feita ao Inhotim em sintonia com a filosofia do idealizador do Instituto, Bernardo Paz, como explica um dos sócios-proprietários da Orchid Brazil, André Cavasini. “Quando conversei com ele, lembro-me de ouvi-lo dizer que o Inhotim ficará para a humanidade. Quero que assim seja também com as orquídeas”.

    Cattleya walkeriana
    A espécie foi descoberta no século 19. Na capital mineira, durante a exposição nacional de orquídeas, há uma mostra específica dessa flor. Típica dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Goiás, está se adaptando facilmente a outras regiões e, assim, tem sido cultivada em todo o País. Segundo André Cavasini, a espécie é uma das mais procuradas pelos orquidófilos e possui alto valor no mercado. “Além de ser uma planta cultivável em todas as regiões, alguns exemplares possuem flores simétricas, o que contribui para valorizar uma orquídea Walkerianas Orchidbrazil”.

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    28 de dezembro de 2015

    Redação Inhotim


    Leitura: 5 min

    Restrospectiva 2015: Jovens Agentes Ambientais Inhotim

    JAA Brasil _ William Gomes

    O programa Jovens Agentes Ambientais foi inicialmente criado para democratizar o acesso a técnicas de jardinagem e cultivo do solo. Ao longo dos anos o projeto se desenvolveu e passou a ter projeções ambiciosas no campo da educação e hoje aspira à formação de protagonistas juvenis para a sustentabilidade e cuidado com o meio ambiente. Essa transformação fez com que o rol de conteúdos a serem discutidos aumentasse em quantidade e diversidade. Para tornar possível essa empreitada, em 2015 foi inaugurado o formato anual de realização do projeto: uma única turma de 25 jovens provocados a repensar a nossa relação com o meio ambiente e, por que não, com o nosso próprio futuro.

    No início de 2015 escrevi, aqui no blog do Inhotim, que “Como educadores, desejamos provocar o jovem a se perceber protagonista da sua própria experiência no lugar onde vive. Entendemos que são muitas as oportunidades que temos de mudar a relação entre homem e ambiente, por isso exercitamos a habilidade de identificá-las e de atuar sobre elas em qualquer escala.” A partir desta convicção, começamos o ano propondo ao grupo uma reflexão sobre rótulos das embalagens dos produtos que comumente consumimos. Descobrimos o símbolo dos transgênicos estampado na caixa de chicletes e pelos jornais soubemos que, naquele mesmo momento, a Câmara dos Deputados discutia a aprovação do projeto de lei 4148/08, que dispensa o alerta nos rótulos de mercadorias que tenham em sua composição elementos geneticamente modificados. O projeto foi aprovado. Nós, por outro lado, temos ainda nossas dúvidas e continuamos na busca por novos caminhos.

    Uma vez que, como grupo, estávamos convencidos de que é preciso transformar a relação que estabelecemos com os recursos que a natureza nos oferece, percebemos a necessidade de exercer um outro papel: o de comunicar e sensibilizar. A partir de então, visitamos bairros e distritos de Brumadinho, conhecemos os desafios cotidianos de outras famílias e pudemos atestar que ainda existe espaço para o diálogo. Fomos muito bem recebidos pela comunidade dos Pires, que plantou as mudas de algumas espécies medicinais que cultivamos e levamos até lá, bem como aceitou o convite para uma ampla discussão sobre cuidado, cooperação e transformação.

    Com isso, aprendemos que ter voz requer muita responsabilidade. Ainda assim, ou exatamente por isso, desejávamos falar mais e mais alto. Desse desejo então nasceu a Coluna Jovens Agentes Ambientais, nosso espaço no jornal local. Nela, temos a chance de dar vazão às pesquisas e descobertas que ocorrem durante os nossos encontros, dar evidência a assuntos pouco discutidos ou contraditórios, ativar novas redes de colaboração.

    Durante toda essa caminhada não perdemos de vista o fato de que estamos vivendo um momento chave para a definição do nosso próprio futuro. As estatísticas e as projeções dos cientistas sobre o destino do nosso planeta são alarmantes, muitas vezes a ponto de nos paralisar. Mas a estagnação não é, para nós, uma opção. Conscientes de que é urgente fazermos escolhas mais saudáveis com relação aos nossos hábitos de consumo, seguimos em frente sempre em busca de alternativas que nos façam reaprender a estar no mundo sem destruí-lo.

    Artigo escrito pela supervisora de Educação, Lília Dantas.

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    16 de dezembro de 2015

    Alvaro Machado

    Repórter da revista Carta Capital


    Leitura: 4 min

    A casa de terra

    A casa de terra

    Crédito da foto: Alvaro Machado

    Ao observar os tijolos que recobrem as paredes  externas do belo edifício de 1.600 m2, vinte ianomâmis levados da aldeia Toototobi (Roraima) a Brumadinho (MG) para a inauguração da Galeria Claudia Andujar, no Instituto Inhotim, em fins de novembro de 2015, apelidaram-na “A casa de terra”. O edifício abriga mais de 400 fotos da artista suíço-brasileira, tomadas sobretudo nos anos 1970 no território da etnia, demarcado em 1992. Foi realizado ao custo de R$ 12 milhões, com patrocínio do Banco Santander e a parceria de Arquitetos Associados, escritório belo-horizontino responsável por pavilhões como o do também fotógrafo Miguel Rio Branco, ligado à Galeria Claudia Andujar também por agradável trilha sombreada. A fração de 0,1% do contingente ianomâmi brasileiro – hoje com cerca de vinte mil indivíduos, não contadas as aldeias venezuelanas –, aprovou o pavilhão, a par de julgar as “imagens não-falantes” uma “coisa morta”. Os índios sabem que as fotos magnificadas em ampliações gigantescas servirão à preservação de seu modo de vida por mais algumas décadas e para combater males como os garimpos ilegais. Apenas no rio Apiaú, são contadas atualmente setenta balsas mineradoras.

    Nos cinco dias da estada mineira, os índios regalaram-se com o bufê do Tamboril, o exclusivo restaurante local, a aceitar pela primeira vez comensais de torso nu, e conheceram alguns dos agora 19 pavilhões do parque. Foram vistos a rir incontidamente à saída da Galeria Cosmococa de Hélio Oiticica, reflexão sobre o pó consumido via nasal por não-índios, à maneira de sua iakoana, soprada com zabaratana nos narizes dos pajés.

    A pajelança de inauguração, no último dia 26, foi praticada com todos os elementos do ritual. Foi usada a iakoana, mistura de pós vegetais que, aspirada, facilitaria a comunicação com os espíritos, para o espanto e a hilaridade de parte do público presente. O pajé “jovem”, assim apresentado pelo líder Davi Kopenawa aos convidados, lembrava em seus movimentos os tradicionais intérpretes do milenar teatro Nô japonês em cenas de lutas com espíritos invisíveis.

    Fruto de cinco anos de trabalho de Andujar ao lado do curador Rodrigo Moura, diretor artístico de Inhotim, a galeria Claudia Andujar divide-se em quatro blocos. Eles intensificam, inicialmente, a materialidade da natureza amazônica, até alcançar seu oposto espiritual; consagram a harmonia do cotidiano indígena e sua sabedoria, tão rica como despojada; flagram a vulnerabilidade indígena, advinda sobretudo do contato com o branco, como na série Marcados; exibem uma valiosa coleção de 94 desenhos feitos pelos índios a pedido da fotógrafa, nos anos 1970, com visões interiores de sua cosmologia; e, finalmente, mostram a área ianomâmi já em 2010, com o olhar atento de Andujar a certa descaracterização. As dinâmicas estabelecidas entre as imagens e os espaços generosos, algo como um museu inteiro destinado a um único artista, lançam a obra da fotógrafa a novo patamar.

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