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  • 24 de abril de 2019

    Redação Inhotim


    Leitura: 3 min

    Esperança em forma de música: Orquestra da Maré se apresenta no Inhotim

    Esperança em forma de música: Orquestra da Maré se apresenta no Inhotim

    “A arte é um impulso. É essa mensagem que queremos passar para Brumadinho e para quem está no Inhotim”. Desse jeito, Carlos Eduardo Prazeres, fundador da Orquestra Maré do Amanhã, define a missão dos jovens e das crianças durante as apresentações do grupo na cidade e no Parque durante o próximo final de semana. No sábado (27/4), a orquestra faz show em Brumadinho durante o evento “A Arte Abraça Brumadinho”. Já no domingo, o palco será no Inhotim, aos pés do Tamboril, às 14h30.

    Carlos fundou a orquestra no Complexo de Favelas da Maré em 2010, como forma de continuar o sonho do pai: ensinar música a crianças e adolescentes de comunidades vulneráveis. O maestro Armando Prazeres foi assassinado um ano antes depois de ter sido sequestrado no bairro Laranjeiras. O carro dele foi encontrado na região da comunidade onde hoje seu filho conduz o projeto que realiza sua vontade de levar oportunidade e cultura para 3500 jovens entre 4 e 18 anos. “Foi a minha forma de transformar dor em esperança”, relembra.

    Hoje em dia, a Maré do Amanhã conta com a orquestra mirim e com a orquestra infanto-juvenil formando musicalmente jovens da comunidade. Durante este processo, talentos e vocações genuínas são identificados pelos professores e professoras. Esses alunos são convidados a integrar o  braço profissionalizante do projeto: a Camerata Jovem Maré do Amanhã.

    Quem faz parte desse núcleo recebe uma bolsa mensal de um salário mínimo. “Já viajamos até para Roma, para tocar para o Papa. Agora é a vez de levar a nossa música para quem mora em Brumadinho, para os bombeiros que trabalham arduamente desde o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, e para os visitantes do Inhotim. Da mesma forma que a música apazígua a vida desses jovens músicos que vivem na pele, diariamente, tantas formas de opressão, eu penso que também pode apaziguar quem está vivendo esse momento de dor e luto”, diz Carlos.

    Durante a apresentação no Inhotim, a orquestra escolheu coletivamente um repertório diversificado. “Vai ter Asa Branca, vai ter Milton Nascimento, vai ter forró e até Michael Jackson”, adianta Carlos. O ingresso do show está incluído na entrada para o Inhotim, que custa R$ 44 (inteira). Para comprar o seu e confirmar sua presença, é só clicar aqui!

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    23 de abril de 2019

    Thais Schiavo

    Arquiteta


    Leitura: 9 min

    De olhos bem abertos para a arquitetura do Inhotim

    De olhos bem abertos para a arquitetura do Inhotim

    Resolvi conhecer o Inhotim depois de ver no Instagram as fotos de um amigo que tinha feito essa viagem recentemente. Olhei para aquele lugar, por meio da tela do celular, e me deslumbrei de repente. Um tempo depois, organizei o passeio para ir com minha família, e me lembro como se fosse hoje da sensação de entrar na Galeria Claudia Andujar (G23) pela primeira vez. As luzes, a sombra, o corredor que nos leva até a primeira sala, os tijolos… era tudo feito de uma forma muito especial para abrigar um trabalho tão potente como o dela. No último carnaval, dois anos depois dessa visita, decidi voltar para colocar em prática um projeto pessoal: escrever conteúdos sobre arquitetura para compartilhar com quem gosta no meu site. Não existia nenhum lugar melhor para começar a costurar palavras sobre projetos que admiro.

    Meu encantamento pela Galeria Claudia Andujar começou pelo corredor de acesso, que já emociona à primeira vista. A composição de tijolos artesanais dispostos de forma inusitada nos convida a conhecer o interior da galeria. Os tijolos estão dispostos de forma ritmada, o que torna o edifício único, criando uma relação incrível de cheios e vazios, realçando um interessante jogo de luz e sombra e dialogando de forma sensível com as obras fotográficas expostas no espaço.

    A fachada, assim como algumas áreas internas, é revestida pelos mesmos tijolos, trazendo identidade ao projeto. Além disso, me chamou a atenção a iluminação zenital, proporcionada por diferentes vazões de raios solares na cobertura da edificação. Esse tipo de disposição de luz, junto à abertura de vidros no interior, permite uma forte integração com a área externa. Ao visitar essa galeria, pare e perceba o efeito sinestético que a materialidade, a disposição dos espaços, a paginação ritmada dos tijolos e a sutileza da luz invadindo gentilmente o espaço lhe proporciona.

    Design sem nome (8)

    Não muito longe dali está a Galeria Miguel Rio Branco (G16), com uma volumetria escultórica que chama atenção à primeira vista. Observando de longe o prédio, fica evidente a forma do pavimento superior suspenso em um grande declive. A forma remete a um monólito com inclinações variadas, agressivo e frio. Fechado, sem janelas, e com vedação em aço, cria uma atmosfera sombria que dialoga com as obras abrigadas no prédio. Por meio de fotos, vídeos e projeções com cores vivas, a curadoria reuniu ali trabalhos que retratam recortes de realidades vulneráveis, como a Série Maciel (1979), realizada no Pelourinho, em Salvador. Para compensar a escuridão das salas, o acesso a elas é feito por uma escada iluminada pelos feixes de luz do sol que a abertura zenital proporciona.

    miguel rio brano

    Passando pela rota rosa do mapa, subimos até a galeria Doug Aitken (G10), onde está o Sonic Pavillion (2009), popularmente conhecido como “O Som da Terra”. Esse projeto se destaca pela maneira como a construção trabalha a relação entre forma e função. Trata-se de um pavilhão, composto de vidro e aço, de formato circular, revestido por uma película plástica. Ao centro dele, um poço tubular com cerca de 200 metros de profundidade dotado de um sofisticado sistema de microfones que (pasmem!) amplifica o som da Terra em tempo real! Muitos visitantes escolhem contemplar o som em um banco de madeira que circunda o perímetro da galeria. O fato de se sentarem em forma de círculo, com o poço ao centro do espaço, traz o efeito sinestésico de apreciação sonora necessário para uma obra como esta. A experiência é transformadora!

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    Outro grande exemplo de sintonia entre forma e função é a Galeria Cosmococa (G15). Sua volumetria externa é composta por cinco salas de experimentação conectadas por um hall central. Ao entrar, os visitantes podem transitar livremente entre as salas de experimentação, na ordem em que preferirem. Inclusive, na visão do artista Hélio Oiticica, o visitante aqui vai além da passividade costumeira, quando se trata de museus e galerias de arte. Procurando desconstruir a lógica estabelecida entre observador e objeto, para ele, todos que entram nas Cosmococas são “participadores”, por terem um papel ativo na tarefa de conferir sentido à obra.

    Sobre a fachada, o revestimento em pedras difere a galeria das demais, trazendo um conceito único e monumental ao projeto. Em contrapartida, a cobertura verde acessível pelo nível mais alto do parque, integra o projeto ao paisagismo, proporcionando um extenso espaço de contemplação e contato com o horizonte. É uma experiência fenomenal visitar a esse lugar!

    Design sem nome (10)

    Na mesma rota da Galeria Cosmococa, encontramos a Galeria Adriana Varejão (G7), com formas que podem parecer rígidas, mas que permitem fluidez de percursos, já que pode ser visitada a partir do pavimento térreo e também pela cobertura do edifício. Em contraste com sua forma brutal e a materialidade em concreto armado, os espelhos d’água em formatos geométricos imprimem leveza e refletem a natureza que circunda o edifício. As aberturas também são zenitais e iluminam indiretamente as obras de arte de forma poética e sensível. Trata-se de mais um exemplo da integração entre arquitetura, arte e natureza no Instituto.

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    Por fim, não poderia deixar de expressar o meu encantamento pela Galeria Psicoativa Tunga (G21). Seu pavilhão amplo, diferente das galerias que já citei aqui, confere um caráter flexível no que se trata de exposição de obras de arte. O pé direito alto, a fachada livre e um grande espaço interno permitem a exposição de diversos tipos e tamanhos de trabalhos artísticos sob diversos pontos de vista. Foi ali que vi aquela belíssima obra À Luz de Dois Mundos (2005).

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    Essas, para mim, são as galerias com arquitetura mais marcantes no Inhotim. Enquanto algumas apresentavam forte relação entre a espacialidade e a obra exposta, como as Galerias Doug Aitken e Cosmococa, outras apresentam caráter mais flexível e mutável, como a Galeria Cláudia Andujar e Adriana Varejão. Outra diferença marcante entre elas é a materialidade. As escolhas feitas no momento de definir qual o material que seria empregado em cada projeto ajudou a definir o caráter e a identidade de cada uma. Em comum entre todas elas, há o forte padrão de integração entre o que existe por dentro – obras de arte – e o que existe por fora – paisagismo.

    Para mim, visitar Inhotim é ter contato com outras possibilidades de vivência da arte e da natureza. Mais do que é possível expressar em um texto, cabe a cada um experimentar as diversas sensações que as galerias, as obras e os jardins despertam de forma particular em nós.

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    11 de abril de 2019

    Redação Inhotim


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    Leitura: 5 min

    Nosso Inhotim dá entrada gratuita a quem mora em Brumadinho; cadastros começam nesta sexta (12)

    Nosso Inhotim dá entrada gratuita a quem mora em Brumadinho; cadastros começam nesta sexta (12)

    A primeira ação de cadastro do Nosso Inhotim em Brumadinho acontece nesta sexta-feira (12/4) e neste sábado (13/4), das 10h às 14h, na Rodoviária da cidade. O programa, que existia desde 2014 concedendo meia-entrada a quem comprovasse residência na cidade, agora se amplia, dando aos inscritos entrada gratuita em qualquer dia de visitação e 50% de desconto nos eventos realizados no Parque.

    A ação dá início à agenda de 2019 do Instituto, convidando todos e todas a estarem presentes no Inhotim e em Brumadinho, nossa maneira de trazer novas memórias à região.

    Antecipamos algumas dúvidas que possam surgir sobre o cadastramento:

    – Como vai funcionar o cadastro para o Nosso Inhotim?
    Nossas equipes estarão nesta sexta (12/4) e neste sábado (13/4) na Praça da Rodoviária, em Brumadinho fazendo os cadastros. É necessário que as pessoas levem um xerox do comprovante de residência e o documento de identidade. Quem fizer a inscrição com a gente nesse primeiro encontro, poderá entrar gratuitamente no Inhotim a partir da próxima sexta, no feriado da Semana Santa.  O nome dela estará em uma lista que deixaremos na Recepção.

    -Tem problema alguém da família fazer o cadastro?
    Não, desde que seja um grau de parentesco próximo (pai, mãe, filhos ou irmãos). Nesse caso, é necessário que essa pessoa leve as cópias dos documentos de identidade – que confirmem esse parentesco – e de comprovação de residência.

    -Quem pode se cadastrar no programa?
    Podem se cadastrar moradores de Brumadinho, de todas as idades, mediante a comprovação da residência na cidade. Não faremos o cadastro de crianças de até 5 anos pois elas já não pagam a entrada.

    -O que o programa vai oferecer?
    Quem se cadastrar no programa vai ter entrada gratuita e desconto de 50% nos eventos organizados pelo Inhotim.

    -A entrada gratuita será permanente?
    O cadastro é válido por dois anos, quando será necessário fazer uma nova inscrição, comprovando a residência em Brumadinho uma outra vez.

    -Só será possível cadastrar dessa vez?
    Esta será somente a primeira ação de cadastramento. Estamos planejando estendê-las durante todo o ano. A próxima oportunidade já confirmada para quem não puder ir até a Rodoviária neste primeiro momento será nos dias 10 e 11 de maio, no mesmo local.

    -Quando a carteirinha ficará pronta?
    A previsão é de cerca de vinte dias após o cadastramento. Elas estarão disponíveis na recepção onde os donos poderão buscar, mediante a apresentação de um documento de identidade.

    -Assim que eu fizer meu cadastro já será possível utilizar o benefício?
    No caso desta primeira ação de cadastramento, as entradas para os inscritos estarão liberadas a partir da outra sexta (19/4). Em outras situações, as pessoas inscritas serão avisadas sobre o prazo para entrega no dia em que as inscrições serão feitas.

    -Vocês planejam outras ações para a cidade?
    Os cadastros do programa Nosso Inhotim representam o começo de uma agenda de programações culturais e educativas que têm como objetivo principal trazer a presença das pessoas para Brumadinho e para o Inhotim. O segundo evento especial já confirmado nessa agenda será o show do Lenine, marcado para sábado (27/4) e a apresentação da Orquestra da Maré no domingo (28/4). As pessoas inscritas no programa terão direito à meia-entrada no dia do show (compre seu ingresso clicando aqui), e à entrada livre no dia da orquestra.

    Esperamos pelos moradores e moradoras de Brumadinho durante todo o ano!

    Confirme, inspire e espalhe sua presença por aqui!

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    05 de abril de 2019

    Redação Inhotim


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    Leitura: 6 min

    Presença: um convite do Inhotim para você

    Presença: um convite do Inhotim para você

    Começamos 2019 com um Inhotim movimentado e com a expectativa de ter o Instituto cheio de gente ao longo do ano. No fim de janeiro, o rompimento da barragem da Mina do Feijão mudou a dinâmica de toda a Brumadinho, cidade que de repente se viu tomada pelo luto e pelo medo. Desde então, pensamos formas de recomeçar, com respeito ao lugar que nos abriga e entendendo a nossa responsabilidade em construir junto à comunidade alternativas para seguir em frente. Essa responsabilidade é de todos nós. Queremos ser, estar e fazer a nossa e a sua presença acontecerem aqui, fortalecendo Brumadinho e o Instituto de uma forma urgente e necessária.

    Reconhecemos que o Inhotim é um dos principais agentes culturais da região e uma referência no Brasil, uma voz que ecoa longe e atinge muitos mundos. Não foi à toa que recebemos tantas mensagens de solidariedade de pessoas, empresas e instituições que se disponibilizaram a ajudar a cidade. Multiplicar essa voz se tornou nossa missão. Fazer chegar mais longe o convite para que todos e todas estejam aqui conosco, vivenciando a cultura, apreciando a natureza ao redor, fortalecendo os projetos educativos e assim se aproximando de Brumadinho verdadeira e carinhosamente.

    Todo esse contexto nos levou a refletir sobre o que é presença. E foi nela que encontramos a resposta para perguntas importantes que tanto nós quanto os outros nos têm feito. A presença de pessoas no Inhotim nesse momento significa a consciência de que o turismo é essencial para a reestruturação da região. Estar presente no Inhotim também confirma o papel fundamental da arte, da educação e do meio ambiente nos dias de hoje. Exercer presença no Inhotim e em Brumadinho agora é um ato de solidariedade, consciência, cooperação e afeto.

    A sua presença por aqui tem significados que se expandem ainda mais. A experiência no Inhotim, perpassada pelo diálogo entre arte e natureza, traz momentos de descoberta, beleza, empatia, inquietude e transformação. Essa experiência potente é capaz de nos fazer pensar e repensar sobre a nossa presença no mundo, nossa relação com o espaço e com o outro. Ao mesmo tempo que encanta, leva à reflexão. Estar presente no Inhotim potencializa a experiência. E é na experiência que nos descobrimos e nos questionamos. O nosso convite é para o exercício de uma presença que acontece de dentro pra fora, e também de fora para dentro.

    Nesse movimento de fazer do Inhotim um ponto de encontro entre os mais diversos públicos e as múltiplas formas de exercitar presença, existe uma tarefa muito importante: trazer a comunidade de Brumadinho para mais perto. Queremos, mais do que nunca, ver os moradores da cidade participando de tudo que construímos. O Inhotim é um lugar formado, em sua grande parte, por funcionários e funcionárias que vivem na cidade. São eles que cuidam das galerias, dos jardins e de todos os outros espaços com tanto zelo e recebem quem chega por aqui com carinho e hospitalidade.

    A presença dos moradores de Brumadinho em tudo que virá pela frente é essencial para criarmos novos caminhos e novos ânimos. Por isso, nossa primeira ação será o fortalecimento do programa Nosso Inhotim. Com ele, moradores de Brumadinho têm direito a entrada gratuita e 50% de desconto nos eventos especiais realizados pelo Instituto. As ações de cadastramento serão feitas ao longo de todo o ano, dentro e fora do Inhotim, tendo o primeiro encontro marcado para os dias 12 e 13 de abril, das 10h às 14h, na Rodoviária de Brumadinho. Acreditamos que multiplicar as experiências no Inhotim é uma parte importante desse recomeço e queremos fazer isso juntos.

    Ocupar o Inhotim com uma programação especial também é uma das maneiras de trazer novas memórias à região. No dia 27 de abril, um show com Lenine inaugura a programação cultural de 2019 do Inhotim, que busca ajudar na recuperação de Brumadinho. O cantor pernambucano Lenine retorna ao Inhotim para uma tarde de muita música e histórias com a turnê “Lenine em Trânsito”, que traz grandes sucessos dos seus mais de 30 anos de carreira e canções inéditas. O show é patrocinado pelo Itaú e abre uma agenda especial com atrações diversas. Um convite nosso para que as pessoas se aproximem da região que abriga o Instituto e vivam experiências que possibilitem transformar e ser transformado.

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    27 de fevereiro de 2019

    Ieska Tubaldini


    acessibilidadedepoimentoexperiência

    Leitura: 6 min

    Acessibilidade atitudinal – Um relato de Ieska Labão

    Acessibilidade atitudinal – Um relato de Ieska Labão

    Escutei falar sobre o Inhotim pela primeira vez cerca de dois anos atrás, através de uma grande amiga, cujo pai, um sábio aventureiro de 90 anos de idade, leu uma reportagem sobre o Instituto e disse que desejava conhecê-lo.

    Apaixonada por jardins e museus, encontrei na descrição daquele espaço um mundo de motivos para querer conhecê-lo o quanto antes. Soube que vinha sendo muito visitado por turistas estrangeiros e contava com estrutura adequada, o que me tranquilizou o suficiente em relação à acessibilidade necessária para transitar com as minhas rodas. Depois que amigas cadeirantes também o visitaram, confirmei que esse passeio precisava ser feito. E logo!

    Entre uma rampa de madeira que me levou a um estádio infinito, uma trilha pela mata que me presenteou com Tunga ao seu final e salas de som que me transportaram para outras dimensões, encontrei, a quase 700 quilômetros da minha casa, um lugar que me impactou como poucos.

    Cheguei no Inhotim em setembro de 2018, numa quinta-feira de manhã. De cara, eu e minha família fomos recebidos por uma equipe simpática, gentil e extremamente solícita. Fomos informados sobre as facilidades disponíveis para pessoas com mobilidade reduzida e contamos com os carrinhos de transporte durante todo o nosso passeio, mas não demorou para que percebêssemos que a acessibilidade do Instituto ia além disso.

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    Vivemos em uma sociedade que ainda crê que acessibilidade significa rampas e guias rebaixadas. O conceito de acessibilidade atitudinal é pouco conhecido até mesmo em grupos de discussão social e, enquanto pessoa com deficiência, eu o considero uma das ferramentas mais importantes para a inserção da acessibilidade em qualquer espaço.

    Entende-se por acessibilidade atitudinal, de acordo com o Ministério da Educação (2013): “[a] percepção do outro sem preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminações. Todos os demais tipos de acessibilidade estão relacionados a essa, pois é a atitude da pessoa que impulsiona a remoção de barreiras”.

    É através desse tipo de acessibilidade que Inhotim reduz suas barreiras estruturais e proporciona uma experiência para lá de satisfatória às pessoas que poderiam se ver impedidas de transitar em calçamentos de pedra e trilhas pelo meio da mata.

    Para chegar à Galeria Psicoativa Tunga, contamos com o carrinho de transporte do Instituto para nos levar por uma trilha na mata. Proposital ou não, a experiência com a obra de Tunga, para mim, começou ali. Uma pessoa cadeirante não é exatamente bem-vinda em trilhas e não costuma experimentar os desafios físicos desse tipo de atividade, então, já pisei com minhas rodas na galeria sendo alguém diferente do que era dez minutos antes. Me ajeitei, me estalei, alonguei e fui de peito aberto experimentar Tunga pessoalmente pela primeira vez. E que experiência! Tunga mexe com os nossos sentidos, todos eles. Provoca, cutuca. Fica difícil dizer qual parte foi mais desafiadora: a ida e a volta pela trilha ou a galeria em si. De fato, nada descreve esse espaço melhor do que “psicoativo”.

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    Fora desta galeria, mas tão psicoativas quanto, destaco as obras Sonic Pavilion, de Doug Aitken, e Forty Part Motet, de Janet Cardiff, ambas em exposição permanente. Uma mostra a voz do Planeta Terra a 200 metros de profundidade enquanto a outra preenche um grande galpão branco puríssimo com as 40 vozes de um coral. É para respirar fundo, fechar os olhos e se deixar sentir. Só é preciso cuidado para não querer ficar somente nessas duas instalações durante todo o dia.

    Obras preferidas à parte, consigo pensar em poucos lugares nos quais me senti mais acolhida e mais envolvida pela arte. No Inhotim as plantas são arte, as obras são arte, as pessoas são arte. E é arte para todo mundo que tiver disposição para interagir com ela. Trilhas de terra e pisos de pedra, que costumam ser enormes impeditivos para qualquer pessoa com mobilidade reduzida, são superados pela disposição da equipe do Instituto em ajudar.

    Como todo lugar que já visitei (e quando digo “todo” é todo mesmo), Inhotim mostra aspectos que ainda podem ser melhorados em relação à acessibilidade, mas, como em nenhum lugar que já visitei no Brasil, ele se mostra disposto, disponível e apto a se aprimorar.

    Até breve, Inhotim.

    Eu e minhas rodas não vemos a hora de te revisitar!

    Ieska Labão

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