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Yayoi Kusama, a artista que cria arte para “a cura da humanidade”

Yayoi Kusama, a artista que cria arte para “a cura da humanidade”

Em 1999, a Revista BOMB (edição 66) publicou uma entrevista com  Yayoi Kusama, autora da obra “Narcissus garden : Inhotim” (2009), exposta no topo do Centro Educativo Burle Marx. O trabalho da artista japonesa guarda uma história interessante, já que se trata de uma versão de uma escultura originalmente apresentada em 1966 para uma participação de Yayoi na 33a Bienal de Veneza. Naquela ocasião, ela instalou clandestinamente 1.500 bolas de aço inoxidável que eram vendidas a quem passasse por US$ 2 cada, sobre um gramado em meio aos pavilhões. As esferas continham uma placa onde estava escrito “Seu narcisismo à venda”, revelando de forma irônica sua mensagem crítica ao sistema da arte e seus sistemas de repetição e mercantilização. A intervenção levou à retirada de Kusama da Bienal, onde ela só retornou  representando o Japão oficialmente em 1993. Na versão de Inhotim, 500 esferas de aço inoxidável flutuam sobre um espelho de água, criando formas que se diluem e se condensam de acordo com a força do vento. Resgatamos aqui a entrevista com a artista. Entender melhor sua história de vida abre ainda mais possibilidades de interpretar a obra desta artista que já acumula 70 anos de carreira.

GT: Você teme que as pessoas talvez estejam interessadas na sua biografia à custa da sua arte?
YK: Eu não tenho esse medo. Meu trabalho é uma expressão da minha vida, particularmente da minha doença mental.

GT: Você vive em um hospital psiquiátrico. É verdade que você se internou voluntariamente?
YK: Eu fui internada em um hospital em Tóquio em 1975 onde eu tenho morado desde então. Eu escolhi viver aqui seguindo o conselho de um psiquiatra. Ele sugeriu que eu pintasse quadros no hospital enquanto seguisse com meu tratamento. Isso aconteceu enquanto eu viajava pela Europa, montando minhas exibições de moda em Roma, Paris, Bélgica e Alemanha.

GT: Apesar de você ter sido internada, você é uma artista e escritora muito ativa. Onde você trabalha?
YK: Eu trabalho no meu condomínio/estúdio perto do hospital.

GT: Você diz que a sua arte é uma expressão do seu transtorno psiquiátrico? De que maneira?
YK: Minha arte tem origem em alucinações que somente eu consigo ver. Eu traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me assombram em esculturas e pinturas. Todos os meus trabalhos em pastel são produtos de uma neurose obsessiva e são, portanto inextricavelmente ligados à minha doença. No entanto, eu crio obras mesmo quando não vejo alucinações.

GT: Você nasceu em Matsumoto, uma cidade de médio porte na região central do Japão, em 1929. A guerra não afetou grandemente a sua família uma vez que Matsumoto era bastante isolada e sua família era abastada. Isso é verdade?
YK: A nossa casa escapou à destruição durante a guerra e nossa despensa estava cheia de suprimentos, então nós tínhamos o suficiente para nos alimentar, felizmente. Sim, minha família é bastante rica. Eles são responsáveis pela gestão de imóveis e empresas de armazenamento. Eles também vendem por atacado sementes de plantas cultivadas em suas grandes fazendas. Eles têm gerido esse tipo de negócio por 100 anos.

GT: Mas mesmo assim a sua infância foi bastante horrenda. Suas descrições da sua mãe são de arrepiar.
YK: Minha mãe era uma mulher de negócios muito perspicaz, sempre terrivelmente ocupada com o seu trabalho. Eu acredito que ela contribuiu significativamente para o sucesso dos negócios de família. Mas ela era extremamente violenta. Ela odiava me ver pintando, então ela destruía as telas com as quais eu estava trabalhando. Eu tenho pintado quadros desde os dez anos de idade, quando eu comecei a ter alucinações. Eu as produzia em grande quantidade. Mesmo antes de eu começar a pintar, eu era diferente das outras crianças. Minha mãe me batia e me chutava todos os dias, irritada que eu estava sempre pintando.  Ela me forçava a ajudar os empregados, mesmo quando eu tinha que estudar para as provas finais. Eu ficava tão exausta que me sentia muito insegura às vezes. Meu pai, um conquistador, estava constantemente ausente. Ele era uma pessoa de coração gentil, mas tendo se casado com a minha mãe e entrado para a sua família, e, estando sempre sobre o controle financeiro dela, ele não tinha um lugar em casa. Ele deve ter se sentido completamente desmoralizado. Meu irmão mais velho também era contra a minha inclinação para a pintura. Todos os meus irmãos me disseram para eu me tornar uma colecionadora ao invés de pintora.

GT: Tendo em vista a sua vida em família, não surpreende o fato de você ter tido a vontade de sair de casa ainda jovem. Você foi para Kyoto, onde se matriculou em cursos acadêmicos de arte. Esse foi o seu único treinamento formal como artista?
YK: Eu fui para Quioto simplesmente para fugir da violência da minha mãe. Eu raramente frequentava as aulas; eu achava a escola muito conservadora e os professores desatualizados em relação à realidade do mundo moderno. Eu pintava quadros no dormitório ao invés de frequentar as aulas. Por a minha mãe ser tão veementemente contra eu me tornar artista, eu me tornei emocionalmente instável e sofri um surto nervoso. Foi por volta dessa época, na minha adolescência, que eu comecei a receber tratamento psiquiátrico. Traduzindo alucinações e medo de alucinações em pinturas, eu tenho tentado curar a minha doença.

GT: [sobre o período em que Kusama se mudou para Nova York, no final dos anos 50] depois de 18 meses de sua chegada, você teve a sua primeira exposição solo. As paredes da galeria estavam ocupadas por 5 telas enormes cobertas com redes infinitas branco-sobre-branco. Pinceladas pintadas meticulosamente criavam uma trama quase invisível ao olho nu. A exposição foi aclamada por críticos incluindo Dore Ashton e Donald Judd – você foi até mesmo comparada ao Pollock. Esse primeiro sucesso deve ter sido empolgante.
YK: Eu disse para mim mesma, eu consegui! Eu comecei a me associar a colegas que também estavam desenvolvendo novos tipos de pintura. Eu me tornei amiga de artistas tais como Eva Hesse e Donald Judd.

GT: É curioso que Judd tenha ficado tão impressionado com o seu trabalho, já que os seus trabalhos antecipavam uma estética minimalista que depois seria liderada por ele. Você se considera minimalista?
YK: Eu sou uma artista obsessiva. As pessoas podem me classificar de outra forma, mas eu simplesmente as deixo me chamar do que quiserem. Eu me considero uma herege do mundo da arte. Eu penso apenas em mim mesma quando eu faço meu trabalho. Afetada pela obsessão que se instalou em meu corpo, eu criei obras em uma rápida sucessão, meu próprios “ismos”. […] Eu continuarei a criar trabalhos de arte enquanto a minha paixão me mover. Eu sou muito tocada pelo fato de que tenho muitos fãs. Eu venho lutando com a arte como uma terapia para a minha doença, mas eu suponho que não saberei como minha arte é avaliada enquanto estiver viva. Eu crio arte para a cura da humanidade.

Sete décadas de carreira
Por mais de setenta anos, Yayoi Kusama desenvolve uma prática, a qual apesar de conter influências do surrealismo, minimalismo, pop art, Eccentric Abstraction [abstração excêntrica], e dos movimentos Zero e Nul, resiste a qualquer classificação singular. Nascida em Matsumoto (Japão) em 1929, ela estudou pintura em Kyoto antes de se mudar para Nova York no final dos anos 1950, e por volta da metade da década de 60 já tinha se tornado conhecida no universo avant-garde por seus provocativos happenings e exibições. Desde então, os extraordinários esforços artísticos de Kusama têm abarcado pintura, desenho colagem, escultura, performance, filme, gravura, instalação e arte
circunstancial, bem como literatura, moda (notadamente, na sua colaboração com Louis Vuitton em 2012) e design de produto.

Uma característica contínua do trabalho artístico único de Kusama é a estrutura intrincada de tinta que cobre a superfície dos seus quadros Infinity Net [rede infinita], os espaços negativos entre os loops individuais desses padrões abrangentes que emergem como delicadas bolinhas. Esses motivos tem suas raízes em alucinações com as quais ela sofre desde a infância, e nas quais o mundo aparece para ela coberto de formas que se proliferam. Criando um caminho entre o expressionismo abstrato e minimalismo, Kusama mostrou pela primeira vez suas brancas Infinity Nets [redes infinitas] em Nova York no final dos anos 50 e foi aclamada pela crítica. Ela continua a explorar as possibilidades dessas obras em trabalhos monocromáticos os quais são cobertos com malhas que parecem flutuar e se dissolver na medida em que o observador se move ao seu redor.

Outro motivo chave é a forma da abóbora, a qual atingiu um status quase mítico na obra de Kusama desde o final dos anos 40. Vinda de uma família que se sustentava cultivando sementes de plantas, Kusama conhecia a abóbora kabocha dos campos que circundavam a casa de sua infância e esse fruto continua a ocupar um lugar especial na iconografia da artista. Ela tem descrito as suas imagens da abóbora como uma forma de autorretrato.

A partir dessas obras e de suas esculturas acumulativas, nas quais objetos do dia-a-dia se tornam provocativos através de uma cobertura de esculturas flexíveis de formato fálico ou macarrão seco, considerando suas esculturas monumentais e instalações ao ar livre, como o Narcisus Garden, criado em 1966 na ocasião da primeira participação de Kusama da Bienal de Veneza, além das fascinantes ilusões provocadas por seus experimentos recentes com instalações formadas por quartos espelhados, o trabalho de Kusama é amplo, expansivo, e imersivo.



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