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  • 21 de maio de 2015

    Alma Quintana

    Alma Quintana, coreografa mexicana em residência no Inhotim


    arte contemporâneadançainhotim

    Leitura: 7 min

    Um corpo por descobrir

    Um corpo por descobrir

    Há dois meses em residência no Inhotim, a coreógrafa mexicana Alma Quintana vem preparando sua apresentação Aparición e Aparición.Duration, que será realizada no dia 23 de maio no parque. Durante o tempo em que ficou no Instituto, Alma teve a chance de dar oficinas a jovens e crianças integrantes dos projetos sociais do Inhotim. Em artigo para o blog, ela conta sobre essa experiência de usar a dança para aproximá-los não só da arte contemporânea, mas também de si mesmos.

    Neste último mês, minha prática artística, sempre conectada com minha contínua prática de vida, vem seguindo lendo, interpretando e traduzindo o que chamamos de realidade. O que eu olho e o que me olha de volta me proporcionam este fenômeno maravilhoso que é a experiência. Durante minha estadia no Inhotim, estive em contato com diferentes sensações, pensamentos e reflexões que têm movido meus sentidos. Não somente os olhos, os ouvidos, o tato, mas também os sentidos do espaço, da arte, do sensível, do possível, da crítica, da história da comunidade mantiveram ativos questionamentos do meu trabalho durante todo esses meses no Instituto.

    Alma Quintana buscou despertar aproximação de crianças com a dança contemporânea.

    Alma Quintana buscou despertar aproximação de crianças com a dança contemporânea.

    A residência artística no Inhotim tem tido tantas possibilidades que elas vão se estendendo como ramos. Nesse tempo, eu visitei todo o complexo museológico, sempre encontrando grandeza, harmonia e beleza nos jardins.  Troquei vivências com o grupo educativo do parque e com diversas pessoas com as quais eu cruzei e que ajudam a formar essa imensa estrutura. Eu trabalhei principalmente com os meninos do Laboratório Inhotim, e também, sem ter sido planejado, acabei dando oficinas para os meninos do grupo de percussão, integrantes de parte do projeto de Patrimônio e Memoria do Instituto. Além disso, ainda visitei o acervo artístico do Inhotim, o que me proporcionou uma perspectiva mais ampla da história do lugar e, em geral, no contexto deste espaço.

    Eu considero os encontros com os meninos do Laboratório muito proveitosos. Gostaria de ter tido mais tempo para conseguir aprofundar as aulas em interesses específicos da minha prática, mas acredito que, com o pouco que experimentamos, já conseguimos acionar os corpos para essa nova experiência. A maneira como percebem as ações também foi modificada nos corpos, inclusive quando é provável que, para eles, nem tudo seja consciente. As diversas dinâmicas, como a visita ao Galpão Cardiff & Miller, a um espaço aberto com uma montanha de terra vermelha, permitiu que os jovens observassem a matéria do espaço em relação a matéria do corpo. Já os desenhos de memorias, os traços de trajetórias, permitiram abordar as possibilidades de movimento e corpo, relacionando-o com o tempo e com o espaço.

    Depois do trabalho corporal, Alma sugeriu ao grupo de jovens que eles registrassem a experiência no papel.

    Depois do trabalho corporal, Alma sugeriu ao grupo de jovens que eles registrassem a experiência no papel.

    Os principais desafios têm sido o tamanho do grupo, muito numeroso, com jovens em idades nas quais os tabús se manifestam de diversas formas. Sempre se necessita de tempo para romper essas barreiras. Mas considero que eles tiveram bastante recepção das propostas e que o apoio da equipe de educadores do Inhotim foi incrível. Sinto o projeto permeando seus corpos e espero vê-los concebendo a arte com uma aproximação da dança e da coreografia.

    Em resumo, posso dizer que a informação que chegou ao meu corpo durante esse tempo foi muito grande. Eu a recebi com enorme gratidão, já que foi uma contínua fonte de inspiração, contemplação, observação e reflexão. Todas as experiências foram interconectadas para ir gerando os primeiros resultados e materiais com os que eu certamente seguirei trabalhando depois da estadia no Inhotim, para concluir os objetivos propostos desde o principio. O primeiro, a criação de um vídeo coreográfico em colaboração com o artista visual Lutz Baumann, criado a partir do trabalho realizado com os jovens do Laboratório e com o grupo de percussão. O segundo é a criação de uma partitura coreográfica que ofereça, em um futuro, a possibilidade de ter uma versão cênica do projeto, em forma de performance.

    APARICIÓN E APARICIÓN.DURATION
    Quando: 23 de maio, 14h e 15h.
    Onde: Galeria Rivane Neuenschwander às 14h e Teatro Inhotim às 15h.

    *Projeto apoiado pelo Fondo Nacional para la Cultura y las Artes (FONCA) do México.


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    14 de maio de 2015

    Inês Grosso

    Curadora assistente do Inhotim


    do objeto para o mundoexposiçãoinhotimrelógiosão paulo

    Leitura: 4 min

    Um dia como outro qualquer

    Um dia como outro qualquer

    Um dia como outro qualquer (2008) da artista Rivane Neuenschwander, consiste em 24 relógios cujos painéis numéricos, correspondentes à marcação das horas e minutos, foram substituídos por zeros. Instalados no espaço expositivo ou em locais de passagem, como corredores, balcões de atendimento, bibliotecas e cafeterias, e valendo-se da relação entre função e valor simbólico, a obra proporciona um encontro inesperado com o público – onde este esperaria encontrar um relógio em funcionamento, acha, pelo contrário, uma versão atual e intencionalmente modificada dos clássicos flip-clocks, que, neste caso, registram apenas zero hora e zero minutos.

    O dia começa à zero hora e termina à meia-noite. Zero hora marca o início de um novo dia e meia-noite o final. Neuenschwander remete-nos para um tempo hipnótico e ilusoriamente suspenso, para aquele intervalo entre um dia e outro, entre o final de um dia e o começo do seguinte, que será sempre um dia como outro qualquer. De fato, o relógio rege os nossos dias: temos horas para levantar, chegar ao trabalho, almoçar, jantar, dormir, etc. Somos escravos do tempo. De um tempo que não espera. Especialmente numa metrópole como São Paulo, onde vivemos sempre atrasados e dependentes do relógio para não perder a hora, Neuenschwander desafia-nos a refletir sobre a dimensão do tempo no mundo contemporâneo.

    A artista remete-nos para  aquele intervalo entre um dia e outro, que será sempre um dia como outro qualquer.

    A artista remete-nos para aquele intervalo entre um dia e outro, que será sempre um dia como outro qualquer.

    A apropriação de objetos comuns, utilitários ou decorativos, e sua introdução poética no cotidiano da cidade, aproxima sua prática do exercício de revisão do estatuto do objeto artístico.  Isto teve início em meados dos anos de 1960, quando os artistas experimentavam formas alternativas de circulação da obra de arte e sua inserção no mundo real.

    A obra integra a exposição Do Objeto para o Mundo , em exibição no Itaú Cultural até 31 de maio. Os 24 relógios foram espalhados pela sede do Itaú Cultural e por diferentes espaços da cidade, como o Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM, o Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo – MASP e o Centro de Memória Itaú Cultural/Espaço Memória.

    A obra integra a exposição Do objeto para o Mundo - Coleção Inhotim, em SP.

    A obra integra a exposição Do objeto para o Mundo – Coleção Inhotim, em SP.

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