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  • 20 de outubro de 2016

    Cadu Costa

    Artista e professor da UERJ e PUC Rio


    Leitura: 2 min

    Canteiro #Ensaio1nfinit0

    Canteiro #Ensaio1nfinit0

    “Exatamente – disse Albert. – O jardim de veredas que se bifurcam é uma enorme charada, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção de seu nome.”
    (O Jardim de Veredas que se Bifurcam – Ficções. Jorge Luís Borges)

    Essa explicação torna a imagem do jardim sempre incompleta, não linear, por vir. Mas nunca ilusória. O jardim é aberto, pois assim deve ser. Seus espaços estão em promessa aguardando o aporte de novas paisagens.

    Sabendo de sua impermanência, nosso papel é revolver o solo em esperança. A única constante é a inconstância. Habitar um território é saber que se conquista em proporção ao que se abandona, que as ferramentas utilizadas para entrar em seus diversos palácios, devem ser deixadas lá, pois não garantem a entrada no próximo. Que devemos conviver com outros espreitadores, borrar fronteiras, exercer piratarias, insurreições.
    O jardim de muros baixos que é Inhotim, esses crimes poéticos permite. Enquanto o percorremos, ele por nós caminha alterando nossas paisagens interiores, ensinando-nos que há tantos espetáculos no mundo tão transformadores quanto os emoldurados.

    Cadu,
    Inverno de 2016.

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    22 de setembro de 2016

    Redação Inhotim


    Leitura: 4 min

    Bordando a cultura quilombola e os acervos do Inhotim

    Bordando a cultura quilombola e os acervos do Inhotim

    Desde 2013, a Oficina de Bordados realizada em parceria com o SESC nas comunidades quilombola de Sapé e Marinhos, localizadas em Brumadinho, incentivam moradores e moradoras a retratar por meio da costura elementos de suas identidades culturais e históricas, além dos acervos do Inhotim. Atualmente, 25 moradores participam das oficinas, realizadas mensalmente. Neste sábado, dia 24 de outubro, é a vez das participantes e dos participantes do projeto ministrarem uma oficina de bordado no Inhotim, atividade que integra a programação da 10a Primavera dos Museus.

    Durante os encontros realizados em Marinhos e Sapé, os moradores e moradoras tiveram a chance de conhecer as técnicas dos bordados e os tipos de material que poderiam utilizar. Dessa forma, aprenderam sobre bordados sobre riscos, bordados sobre fios contáveis, além da identificação por parte do grupo de como melhor empregar o tipo de desenho, de acordo com a linha, com o tecido e com o ponto a ser trabalhado. São sempre dias muito agradáveis, em que crianças, adultos e idosos se reúnem para conversar, costurar e compartilhar a vida.

    A metodologia adotada foi a participativa com foco na troca de experiências, valores, visões de mundo e saberes entre os participantes. Essa metodologia proporcionou uma grande empatia entre o grupo, uma sensação de estímulo coletivo, valorização de um patrimônio cultural comum, que futuramente poderá ser incorporado aos produtos vendidos pelas artesãs em feiras e festas, possibilitando uma nova alternativa de gerar renda.

    Participantes elaboram juntas vários tipos de bordado durante encontros mensais. Foto: Rossana Magri

    Participantes elaboram juntas vários tipos de bordado durante encontros mensais. Foto: Rossana Magri

    A Primavera dos Museus deste ano convida as instituições museais a fazer uma reflexão sobre as trocas simbólicas, culturais e de experiências que proporcionam aos visitantes e, também, sobre a contribuição para o desenvolvimento sustentável do seu entorno. Sendo assim, surgiu a ideia de aproximar a Oficina de Bordados dos visitantes do Inhotim, levando as bordadeiras e os bordadeiros a ministrarem a atividade na qual os participantes poderão aprender um pouco da técnica que foi desenvolvido ao longo desses anos de projeto.

    Desde 2006, quando abriu as portas para o público, o Instituto auxilia no desenvolvimento da região de Brumadinho, realizando projetos que atendem a comunidade. O diretor executivo do Inhotim, Antonio Grassi, afirma que o tema da 10a Primavera dos Museus – “Museus, Memória e Economia da Cultura” – está em sintonia com o trabalho do Instituto. “O Inhotim desenvolve vários projetos sociais e educativos e impulsiona a economia criativa da região de Brumadinho, além de proporcionar uma experiência única com os nossos acervos”. E conclui: “Queremos continuar com nossa contribuição ao desenvolvimento sustentável do entorno de Brumadinho. Nós só cresceremos se todos crescerem juntos”.

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    14 de setembro de 2016

    Claudia Andujar

    Artista com obras em exposição no Inhotim


    arte

    Leitura: 3 min

    O aroma da floresta Yanomami no Inhotim #Ensaio1nfinit0

    O aroma da floresta Yanomami no Inhotim #Ensaio1nfinit0

    Vejo a galeria Claudia Andujar como obra permanente, um trabalho que comunica uma intimidade com um povo indígena amazonense, recentemente conhecido, os Yanomami, cuja vida e cultura me marcou profundamente.   Ela é o que mais me liga ao tortuoso caminho da vida, e me faz acreditar na importância de ter tido a oportunidade de compartilhar com  eles sua cultura, o conhecimento de sua vida.

    Através desse trabalho de uns 40 anos, tenho agora a oportunidade e liberdade de oferecer meu olhar aos outros, de mostrar como enxergo esse povo. Eu espero que quem vem conhecer os Yanomami no pavilhão, em Inhotim, compartilhe  o que enxerga e entendam como vejo minha ligação com a vida deles, um povo que vive no meio da floresta Amazônica,  junto dela, e dependendo dela.

    É uma população que continua a falar sua língua ancestral, ou vários dialetos da mesma língua, unidos pela crença e pratica  do xamanismo,  eles se comunicam através dela com o mundo dos espíritos para remediar os males que os afligem.

    blog andujar2

    Galeria reúne cerca de 500 fotos da artista. Foto: Daniela Paoliello

    Os vários conjuntos de imagens estão lá para proporcionar o aroma da floresta, encontrar o olhar desse povo, o êxtase  do xamanismo. Elas estão lá para contemplar as luzes das malocas que levam  ao caminho do mundo de cima, um primeiro mundo, cujos seres caíram para formar o mundo em que vivemos hoje, nosso mundo, a momentos de amor pelo outro, e aos perigos do contato com o mundo dos brancos.

    Encontrei em Inhotim amigos que me ajudaram a criar o pavilhão, entre outros, o curador Rodrigo Moura, que compreendeu meu pensamento e me  ajudou a transmitir a mensagem dos conjuntos de imagens.  Trabalhamos cinco anos juntos. O dono de Inhotim, Bernardo, que me permitiu realizar esse sonho.  Ele me hospedou inúmeras vezes, com muita atenção, em sua casa, em Inhotim,  durante a montagem do pavilhão.

    Eu dei minha alma a esse projeto.

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    27 de julho de 2016

    Bruna Nicolielo

    Jornalista e Amiga do Inhotim


    Leitura: 5 min

    O templo de Lygia Pape #Ensaio1nfinit0

    O templo de Lygia Pape #Ensaio1nfinit0

    Assim é (se lhe parece). Por esses caminhos labirínticos da memória, foi justamente o título da peça do italiano Luigi Pirandello que me veio à mente ao ver Tteia 1C pela primeira vez. Para resumir, o autor questiona a existência de uma realidade objetiva, que pode ser interpretada de modo inequívoco, por meio da racionalidade. E isso, para mim, tem tudo a ver com a obra icônica de Lygia Pape — uma das mais arrebatadoras de Inhotim, onde ganhou uma galeria exclusiva.

    Inteiramente vedado e geométrico, o prédio é quase um templo: retira o visitante de um mundo exterior, da luz do dia e dos lindos jardins do parque, e leva para um mundo interior, que convoca à introspecção. Na sala completamente escura, está a Tteia: fios dourados dispostos no sentido vertical e perpendicular, iluminados por focos de luz, que, aqui e ali, ressaltam essas formas no espaço. À primeira vista, eles parecem flutuar, ou dissolver-se. O visitante é induzido a circundar a obra, que, gradual e sutilmente, revela novos feixes de luz. A aproximação traz a descoberta de que os fios estão fixos ao chão em plataformas de madeira. Presume-se, então, que também estejam presos no teto, mas o efeito de “dissolução” persiste. Tento seguir o fluxo das luzes e, ato contínuo, elas desaparecem imediatamente diante dos meus olhos. A mudança de perspectiva e a existência breve de cada um deles cria uma inquietação: Tteia sempre esteve aí, ou sou eu que a vejo, de uma dada forma, de um jeito só meu? Assim é, se lhe parece, retomando a afirmação que abre este texto.

    Os fios da Tteia ocupam e reinventam espaços, criando volume. Assim, ignoram as fronteiras entre o real e o imaginário. Eis o efeito surpreendente da obra. É como se a linguagem geométrica finalmente saísse do papel e ganhasse vida, existisse de forma singular para cada observador que a contempla. Essa conexão entre o espaço e múltiplas subjetividades, aliás tornou-se uma constante no trabalho de Lygia Pape. Várias Ttéias foram produzidas, de 1977 aos anos 2000, como resultado de suas pesquisas sobre a linguagem geométrica. As instalações marcam o amadurecimento da artista, seu avanço gradual, da ruptura com a figuração, nos anos 50, rumo à tridimensionalidade e à total abstração do espaço, bem como sua transição para trabalhos mais monumentais, que flertam com a arquitetura. Em todas as produções do gênero, ela explorou as mesmas questões: a espacialidade, a luz natural e artificial e os materiais simplórios e potencialmente efêmeros, como o fio de cobre e de nylon. Também abriu caminho à participação efetiva do público, seguindo à risca a cartilha do Neoconcretismo, do qual foi uma das fundadoras.

    Uma das mais ativas figuras nessa renovação da arte brasileira, Lygia bebeu nas ideias das vanguardas europeias, interpretando-as ao seu modo. Assim, lançou seu olhar sobre o entorno, marcado por grandes transformações urbanas. Ao transitar de fusquinha pelas ruas do Rio de Janeiro, onde morou praticamente a vida toda, viu a dinâmica da cidade e seu crescimento desordenado, suas pontes e viadutos, a industrialização crescente, a dualidade entre exclusão e inclusão em um lugar que oprime, mas também acolhe e deslumbra. Certa vez, em um depoimento, ela declarou que circular pela urbe se parece com o feitio de uma teia, por uma aranha. Como o animal que produz sua rede de fios para uma dada finalidade, que vai da captura de presas à cópula e ao abrigo, andamos pela cidade criando fluxos próprios. Para Lygia, nesse trânsito elegemos espaços importantes e de afeição, que marcam a experiência humana. Essas reflexões se concretizaram nas Tteias, que, não por acaso, remetem às palavras teia e teteia, que no linguajar do povo, significa algo bonito, gracioso.

    No emaranhado de fios e caminhos invisíveis que foi sua vida, Lygia teceu suas proposições, seu projeto de vida e de arte. E Tteia 1C é o maior emblema de seu modo de ser e sentir e das suas convicções artísticas, tão radicais quanto inovadoras.

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    26 de abril de 2016

    Thaís da Cruz Araujo

    Educator


    Leitura: 4 min

    A arte tragicômica de William Kentridge

    A arte tragicômica de William Kentridge

    I’m not me, the horse is not mine, obra do artista sul-africano William Kentridge, é destaque nas exposições temporárias do Inhotim. Exposta desde outubro de 2015 no Galpão, espaço preparado para receber obras de grandes dimensões no Instituto, o título da instalação em vídeo faz referência a uma expressão utilizada pelos camponeses russos para negar a responsabilidade de algo. As projeções são um fragmento do que o artista produziu enquanto preparava a sua versão da ópera O Nariz, de Dmitri Shostakovich para o New York’s Metropolitan Opera exibida em março de 2010.

    A obra de Kentridge é composta por oito projeções com cerca de seis minutos de duração que ficam em loop constante. O público pôde conferir a vídeoinstalação pela primeira vez na Bienal de Sidnei em 2008, posteriormente no MoMA de Nova York em 2010 e no Tate Modern de Londres entre os anos de 2012 e 2013, até a chegada ao Inhotim em 2015.

    O Nariz é um conto clássico da literatura russa. Escrito entre 1835 e 1836 por Nikolai Gogol, inspirou Shostakovich a compor a ópera homônima em 1927. A sátira narra um homem que acorda de manhã e percebe que seu nariz desapareceu, ele sai à sua procura e quando o encontra, nota que o nariz é hierarquicamente superior ao seu dono. Depois de vários encontros, eles acabam reunificados.

    William Kentridge, por meio da arte e do humor, faz intervenções sobrepondo um nariz nas imagens de arquivo e registros históricos. Ele ainda utiliza linguagens como performance, colagens, desenhos em carvão e principalmente stop motion, para falar da vanguarda russa, como o cinema de Vertov, a arquitetura da torre de Tatlin ou o movimento suprematista de Malevich. É possível identificar alguns nomes históricos como o de Stalin, líder da União Soviética e o da bailarina Anna Pavlova, ícone do balé russo.  As referências utilizadas pelo artista são muitas. A cada novo loop das projeções é possível relacionar a obra a fatos históricos do regime totalitário russo.

    As projeções espalhadas pelo Galpão contam a história do conto "O Nariz" de maneira tragicômica, traço frequente nas obras de Kentridge. Foto: William Gomes.

    As projeções espalhadas pelo Galpão contam a história do conto “O Nariz” de maneira tragicômica, traço frequente nas obras de Kentridge. Foto: William Gomes.

    A trilha sonora original, parte importante da instalação, foi composta por Phillip Miller, parceiro de Kentridge em diversos projetos desde Felix in Exile de 1994. Miller gravou trechos do coro da Igreja em Johannesburg e usou o ritmo como base, mesclando as gravações com a música de Shostakovich de forma indireta, como se fosse uma colagem.

    William Kentridge apresenta uma montagem única do seu olhar, na qual a arte é capaz de se apropriar de forma tragicômica da história e das linguagens, mesclando o interesse pela Rússia com suas próprias referências de seu país de origem.

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