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  • 17 de outubro de 2014

    Bárbara Tavares

    Bolsista PIBIC/Fapemig de assistência geral às atividades de curadoria do Instituto Inhotim. É estudante de Arquitetura e Urbanismo na UFMG.


    arteexposiçãoinauguração

    Leitura: 4 min

    Da montagem à inauguração

    Meu primeiro contato com as obras inauguradas em 2014 foi no escritório do Inhotim em Belo Horizonte. Em fevereiro, eu e a equipe da curadoria começamos a elaborar os dossiês sobre os artistas, que utilizaríamos para consulta interna. Saber um pouco da história e da trajetória de cada um me deixou curiosa e tornou a experiência de agosto e setembro – quando iniciamos as montagens nas galerias – muito mais interessante.

    O trabalho de Dominik Lang foi a primeira surpresa: estava guardado em caixas, ocupando um grande espaço da sala branca que antes estava vazia. Começamos limpando, organizando a sala e desembalando as esculturas. Depois, desceu o trabalho do David Medalla, que me surpreendeu quando entrei na galeria e o encontrei no chão, ainda desmontado. A obra é muito maior do que havia imaginado ao ver as fotos. Então, os quadros do Carroll Dunham, que de pequenas figuras nas páginas do dossiê, se transformaram em telas que ocupavam quase uma parede inteira.

    Foto 1

    A antiga casa de fazenda foi restaurada para receber as telas de Carroll Dunham. Foto: Rossana Magri

    Foram alguns dias entre deixar a sala dedicada à artista Geta Bratescu apenas com algumas marcações e encontrá-la com quase todos os trabalhos no lugar. Já era a semana da inauguração e o trabalho do Dominik tomava, a cada hora, a forma da obra que seria no fim. Medalla estava praticamente montado, seguiam os testes com os materiais utilizados para as espumas e a galeria com as obras de Carroll estava nos detalhes finais.

    Foto 2

    A máquina de bolhas de David Medalla surpeendeu pelas grandes dimensões. Foto: Rossana Magri

    Mas faltavam ainda muitos ajustes na Galeria Lago: instalação das vitrines e cartazes, nivelamento das obras nas paredes, ajustes de iluminação e montagem de cada detalhe do trabalho do Dominik fizeram com que perdêssemos a noção das horas.

    Curadoria e área técnica instalam as obras de Geta Bratescu na Galeria Lago. Foto: Rossana Magri

    Curadoria e área técnica instalam as obras de Geta Bratescu na Galeria Lago. Foto: Rossana Magri

    Dominik Lang e Elton Damasceno discutem detalhes da montagem. Foto: Rossana Magri

    Dominik Lang e Elton Damasceno discutem detalhes da montagem. Foto: Rossana Magri

    Meu último dia nas montagens acabou mais cedo e já era a véspera da inauguração. Em 04 de setembro, dia da abertura, as obras pareciam ter vida com a presença do público. Tudo parecia muito diferente do dia anterior e a sensação de ter contribuído para que a exposição funcionasse foi muito boa.

    Foto 4

    Tudo pronto: o público visita pela primeira vez as exposições da Galeria Lago. Foto: Rossana Magri

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    08 de outubro de 2014

    Francisco Bosco

    Poeta, letrista, filósofo e escritor. Filho do músico João Bosco.


    músicaprogramação cultural

    Leitura: 6 min

    Passagem de som

    Passagem de som

    Eis uma cena que venho testemunhando inúmeras vezes, já há muitos anos: quando João Bosco vai testar o som, com o teatro ainda fechado, horas ou momentos antes de iniciar o show, as poucas pessoas que, de algum modo, podem estar por ali, vão, aos poucos, interrompendo seus afazeres. Algumas chegam a sentar nas poltronas, como se fossem o público oficial, atraídas pelo que se passa no palco. Ali está João Bosco interpretando músicas de seu repertório doméstico, íntimo, afetivo. Canções que nunca gravou, nem mesmo executou publicamente. Um repertório surpreendente, que percorre desde standards do jazz a trilhas de cinema, passando por clássicos do nosso cancioneiro, invariavelmente reinventados nos termos próprios do seu universo musical. Ninguém se levanta até que aquela apresentação particular tenha fim. Não foram poucas as vezes que já o vi ser aplaudido, ali, no aquecimento, antes mesmo de a bola rolar.

    Nada mais apropriado para tornar propriamente pública essa cena, pela primeira vez, do que fazê-lo no ambiente experimental do Inhotim, no próximo domingo, 12/10, às 15h. A passagem de som é uma experiência musical protegida das dimensões comerciais e industriais, tantas vezes banalizadas, da música popular. É a cena da pura artesania, do amadorismo, da informalidade das formas mais avançadas, do artista como se estivesse a sós com suas ideias e desejos musicais. É o território da plena liberdade criativa, que uma instituição como o Inhotim acolhe e propicia.

    Experimental, o show terá João Bosco apresentando suas leituras particulares de clássicos e pérolas obscurecidas pelo tempo, e conversando com o público sobre elas. Ele fala sobre as canções, seus autores, seus modos de pensar a música e os modos como ele, João Bosco, as repensou. Música e metamúsica, portanto.

    O repertório inclui supresas, como a versão do standard “My favourite things”, já radicalmente transcriado por John Coltrane, que, em passos gigantes, transformou a canção ingênua da trilha de A noviça rebelde em um transe jazzístico sem qualquer inocência. João Bosco dá outro salto e conduz a canção a Áfricas que ela jamais imaginou conter.

    Em “Estate”, consagrada por João Gilberto no disco Amoroso, João Bosco submete a canção a um pensamento musical como que oposto ao do pai da bossa nova. Se João Gilberto tinha por método repetir a canção várias vezes, aprofundando-a como numa espécie de mantra, numa circularidade característica da música modal, João Bosco leva a canção a uma espécie de discussão, criando para ela um improviso especial e uma melodia alternativa, paralela à original que tocamos abstratamente em nossa memória.

    Num tal cenário físico e mental, o artista mineiro não poderia deixar de trazer à tona suas próprias Minas Gerais. É assim que ele interpreta o clássico seresteiro “Noite cheia de estrelas”, de Cândido das Neves (morto em Conselheiro Lafaiete, em decorrência de uma pneumonia adquirida no sereno de uma serenata), articulando-a ao clássico universal “Because”, dos Beatles, tornados música mineira pela borgiana influência retrospectiva que neles exerceu o Clube da Esquina, e faz o percurso musical desaguar em “Caça à raposa”, com o barroquismo onírico de suas melodia e letra.

    Minas ainda retorna quando João Bosco uni o samba “João do Pulo” (também dele e Aldir Blanc) à sua leitura de “Clube da esquina 2”. A associação, aqui, é, digamos, sócio-musical. O campeão mundial brasileiro, negro, que teve a perna amputada, é identificado à ambiguidade da música de Milton Nascimento, tão objetivamente triste, tão subjetivamente alegre. Como se em ambos se revelasse a própria ambivalência brasileira, seus problemas sem solução, suas soluções sem problemas. Nosso mesmo núcleo originante de venenos e remédios, para usar a expressão de José Miguel Wisnik.

    Muito mais há: “Invitation” (Bronislaw Kapper), “Lujon” (Henry Mancini), “April child” (Moacir Santos), “Medo de amar” (Vinicius de Moraes), além de alguns dos sempre esperados sucessos de sua autoria. Mas não devo estender tanto esse texto. O som de João Bosco passa, no Inhotim, por grandes ideias musicais – iluminando-as, ressignificando-as, mostrando aproximações insuspeitadas e diferenças singulares – como quem passeia pelas obras nos jardins realizando seus próprios percursos mentais. Parafraseando o crítico literário, é um caso atípico, e imperdível, de ideias dentro do lugar.

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    30 de setembro de 2014

    Equipe de mediadores

    Realiza visitas e atividades que convidam a refletir sobre os acervos do Inhotim


    arteinauguraçãovisita

    Leitura: 3 min

    O jardim e outros mitos

    O jardim e outros mitos

    Desde o início de setembro, o Inhotim apresenta a mostra individual O jardim e outros mitos, da romena Geta Br?tescu. Ocupando parte da Galeria Lago, a exposição reúne trabalhos produzidos a partir da década de 1960 até 2012, e apresentam um amplo espectro da produção da artista e suas percepções sobre a condição feminina e o fazer artístico.

    Atualmente com 88 anos, Geta Br?tescu estudou na Faculdade de Letras e no Instituto de Belas Artes de Bucareste. Assim como em outras ditaduras do Leste Europeu, a cena artística romena ficou dividida entre a “arte oficial”, cujo objetivo era a propaganda do Estado, e as produções que surgiam fora das instituições públicas, de forma marginalizada. Foi nesse contexto que Br?tescu produziu durante três décadas e atuou como ilustradora do jornal cultural Secolul 20. Alguns trabalhos feitos para a publicação podem, inclusive, ser vistos na mostra.

     

    Nuduri

    Desenhos de carvão e nanquim sobre papel da série “Nuduri” (1975), parte da exposição “O jardim e outros mitos”.

    Colagens, litografias, ilustrações de livros, fotografias, gravuras, tapeçarias, filmes experimentais e vídeo-performances estão entre os suportes utilizados por ela. No Inhotim, alguns de seus trabalhos trazem referências da antiguidade clássica e da mitologia grega. É o caso da série Medea, representação da personagem mítica que trai a família para viver com seu grande amor, Jasão. Ao descobrir-se trocada por outra mulher, Medeia tira a vida de seus próprios filhos como forma de vingança.

    Como outros artistas, Br?tescu visitou áreas industriais do país e lançou mão desse contexto como fonte de inspiração para sua produção. A forma circular das caldeiras, dos medidores de pressão, das rodas dos trens de ferro pode ser observada em várias obras, como Circles (2012). Seria o círculo um princípio metafórico? O regime comunista da Romênia poderia ter seus momentos de ascensão e queda narrados por meio da figura do círculo? Essas são apenas algumas reflexões que emergem do trabalho da artista. Não deixe de conferir!

    Magno Silva, educador de arte do Instituto Inhotim

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    19 de setembro de 2014

    Rosalba Lopes

    Gerente de Pesquisa, Projetos e Patrimônio do Instituto Inhotim


    brumadinhocomunidadehistória

    Leitura: 3 min

    A Festa da Colheita em Brumadinho

    A Festa da Colheita em Brumadinho

    Festa da Colheita é agradecimento pelos primeiros frutos, é celebração das primícias. Fala da prosperidade, do nascimento daquilo que foi semeado. Na longa tradição que acompanha a humanidade desde o domínio da agricultura, e particularmente, na tradição católica, ela ocorre ao final da safra e seu principal sentido é a oferenda. Na comunidade quilombola de Marinhos, em Brumadinho, o evento ocorreu no último domingo, 14/09.

    Ao longo da celebração, os agricultores agradeceram pelo milho, abóbora, cana, feijão e até pela lenha produzida na comunidade, cujo grupo de roça – Quem planta e cria tem alegria – é expressão fiel do que se viu ao longo do dia. A comunidade cantou, festejou e comemorou. Tudo deliciosamente acompanhado pelo frango com ora-pro-nóbis. Antes que a produção chegasse às mesas das instituições para as quais foi doada, ela foi saudada pelo canto dos violeiros e pelo jogo de capoeira dos grupos locais. Foi também reverenciada pelas mulheres da comunidade, com sua dança da peneira. Coreografia que faz lembrar que os modos de fazer podem atravessar os séculos e sobreviver em rituais antes praticados em torno das fogueiras, hoje em torno da colheita, mas sempre sustentados pela noção de pertencimento.

    Foto: Daniela Paoliello

    Mulheres celebram os primeiros frutos da estação. Foto: Daniela Paoliello

    Por fim, a produção foi abençoada em missa dedicada ao ofertório. Para além da colheita, os moradores ofereceram a rica e longeva tradição cultural que sobrevive na comunidade, como demonstra o emocionante grupo que, a certa altura, ergue um de seus meninos e canta a importância da solidariedade na vida da comunidade: “[…] de onde nós vem? Nós é do quilombo, é negro por negro”, expressão que dá nome ao grupo. O evento se encerrou com a apresentação das crianças e jovens que participam do projeto de iniciação musical em percussão, desenvolvido pelo Inhotim, tendo à frente o músico Rei Batuque – também um quilombola – em uma demonstração do conhecimento e profundo respeito que o Instituto tem pelas manifestações culturais presentes no território que o abriga.

    Foto: Daniela Paoliello

    Integrantes do grupo de percussão do Inhotim se apresentam na Festa da Colheita. Foto: Daniela Paoliello

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    10 de setembro de 2014

    Redação Inhotim


    arteexposiçãoinauguração

    Leitura: 3 min

    A cidade adormecida

    A cidade adormecida

    O escultor modernista Ji?í Lang provavelmente não poderia imaginar que, quase dez anos depois de sua morte, as obras que criou na República Tcheca durante o regime soviético seriam exibidas no Brasil. Apesar de seu trabalho ter sido considerado promissor na época, a uniformidade e o controle impostos pelo governo fizeram com que as esculturas permanecessem adormecidas no ateliê, em Praga.

    Em 2011, seu filho, Dominik Lang, ressignificou as esculturas criando a instalação The Sleeping City [A cidade adormecida].  Dominik organizou no espaço as peças esquecidas do pai, fracionando-as e cercando-as com barreiras físicas como armários, mesas e outros objetos. A obra, que esteve na 54ª Bienal de Veneza e agora entra em exposição no Inhotim, sugere um questionamento sobre a visibilidade e o destino da arte.

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    Dominik Lang cresceu vendo as esculturas do pai adormecerem no ateliê.

    O interesse na lógica da produção artística e na modificação do espaço já acompanhavam o jovem artista nas suas primeiras criações. Dominik Lang frequentemente se coloca entre o papel do autor e do arquiteto, fazendo intervenções efêmeras que alteram a forma como percebemos os objetos e lugares. Ao escolher como matéria-prima o trabalho do pai, Dominik cria um encontro improvável entre as duas gerações.

    Da próxima vez que visitar o Inhotim, não deixe de passar pela Galeria Lago para ver o trabalho de perto.

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    O artista participou da montagem da instalação junto com o curador Rodrigo Moura na Galeria Lago, no Inhotim. Foto: Daniela Paoliello.

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